domingo, 14 de abril de 2019

A História em Game of Thrones


Game of Thrones é uma obra de ficção fantástica (tanto no sentido de ser uma obra do gênero de fantasia quanto de ser uma obra sensacional mesmo), mas a história das Crônicas de Gelo e Fogo (o nome da série de livros que originou a série da HBO) tem muita, muita inspiração em eventos históricos, e muitos dos eventos mais fantásticos em Westeros, Essos e adjacências foram baseados em fatos, alguns deles ainda mais incríveis, ocorridos no nosso planeta, onde as estações duram apenas três meses.
Aproveitando a onda de empolgação com o lançamento da oitava e última temporada da série na HBO (e torcendo para que George R. R. Martin publique os dois últimos livros não muito tempo depois disso), resolvi escrever sobre a História (com H maiúsculo) em Game of Thrones.
Importante: não contém spoilers, nem glúten, nem lactose.


-Westeros e Essos

Não é segredo para ninguém que as Crônicas de Gelo e Fogo se passam em um ambiente inspirado na Europa medieval, principalmente na Inglaterra. Embora George R. R. Martin não tenha atribuído nenhuma de suas criações de reinos, povos, personagens ou eventos a nenhum paralelo do mundo real em particular, ele se baseia sempre em algumas fontes (no plural). Por isso é impossível afirmar que os Lannisters representam a Inglaterra e os Stark representam a Escócia, por exemplo, mas alguns paralelos podem ser feitos de maneira menos rígida.
Peguemos o mapa, por exemplo. É bem conhecida entre os fãs a teoria de que Westeros, o continente onde se passa a maior parte da trama, representa as Ilhas Britânicas. De fato, se você imaginar a Irlanda sendo girada cento e oitenta graus e encaixada debaixo da Grã-Bretanha, temos o formato de Westeros.


Fonte: http://history-behind-game-of-thrones.com/ancienthistory/walls-wildlings


Mas é difícil chegar a uma conclusão exata, principalmente porque não há nos livros e nem na série uma indicação precisa do tamanho do continente. Alguns fãs sugerem que o continente de Westeros tem aproximadamente o tamanho da Europa ou da América do Sul, enquanto Essos, o continente maior a sudeste, tem dimensões comparáveis à da Ásia. Além disso, não existe em nenhum lugar algo que indique o tamanho real do planeta onde a história se passa. Os mapas que vemos nos livros e na série só mostram alguns continentes cercados por um “oceano” de desconhecido, muito similar aos mapas de antes das Grandes Navegações. Não sabemos o que há além deles, embora a próxima temporada ou os livros possam revelar alguma coisa.
Em uma comparação mais ou menos livre, Westeros representa a Europa, com uma variedade de climas e vegetações similar – desde as terras frias do Norte representando as áreas setentrionais da Escócia, da Escandinávia, da Islândia e da Carélia até as regiões quentes e ensolaradas de Dorne com um clima mediterrâneo parecido com o sul da Espanha, a Grécia ou a Sicília. No meio do caminho, florestas, vales, colinas e cadeias de montanhas com cenários que lembram a Floresta Negra, os Alpes, a Irlanda ou a Inglaterra. Alguns dos lugares da história têm inspirações mais diretas, como Rochedo Casterly (inspirado em Gibraltar) e o Ninho da Águia, da casa Arryn (inspirado no castelo de Neuschwanstein, na Baviera).
Do outro lado do Mar Estreito está Essos, o grande continente livremente baseado na Ásia medieval, com povos exóticos, cidades mercantis cheias de tesouros (e escravos) e estepes extensas povoadas por nômades que vivem sobre cavalos. Sobre os cavaleiros Dothraki e as estepes do Mar Dothraki comentarei mais para frente, mas as grandes cidades de Essos, como Qarth, Astapor, Yunai, Meereen, Volantis, Lys, Tyrosh e Pentos, são frouxamente baseadas nas cidades da península arábica e da Índia. Sobre Sothoryos, as Ilhas Basilisco e as Ilhas do Verão há pouca informação para traçar qualquer paralelo.

-Primeiros homens, valirianos, ândalos
Embora Westeros seja baseado na Europa, sua História no mundo criado por George R. R. Martin tem grandes paralelos com a História da Grã-Bretanha em particular. Nas histórias contadas e no universo expandido, os primeiros habitantes do continente foram os Filhos da Floresta, que viviam de forma primitiva e com uma relação muito próxima da Natureza, em especial das árvores. Em uma época posterior, similar à nossa Era do Bronze, chegaram ao continente os Primeiros Homens, trazendo armas de metal e ferramentas capazes de derrubar árvores. Por muitos séculos os dois povos viveram em guerra, até um acordo de paz ser selado e os Primeiros Homens se comprometerem a proteger os Filhos da Floresta e as árvores, levando a um período de paz duradoura. Depois vieram os Valirianos, um império poderoso embora não tivesse reis, rico e tecnologicamente avançado que levou a civilização a Westeros, até sucumbir a um violento desastre natural. Tempos depois, também atravessando o mar, chegaram os Ândalos, fiéis aos Sete e trazendo armas poderosas feitas de ferro. Derrubaram árvores e praticamente exterminaram os Filhos da Floresta. Por fim, aportando em Dorne com dez mil navios e invadindo o continente em seguida, vieram os Roinares, cerca de mil anos antes dos eventos retratados nas Crônicas de Gelo e Fogo (os livros) e em Game of Thrones (a série).
Embora não se saiba com exatidão quem eram os primeiros povos que habitavam as Ilhas Britânicas, sabe-se que os celtas migraram para lá no início da Era do Bronze, e provavelmente se misturaram com os habitantes nativos das ilhas da mesma forma que os Primeiros Homens fizeram com os Filhos da Floresta. Assim como os povos celtas (que na região ficaram conhecidos como bretões), os Primeiros Homens tinham armas e armaduras de metal e construíam fortalezas de madeira. Outro importante paralelo entre os celtas e os Primeiros Homens está em um aspecto cultural e religioso: a veneração das árvores. Os druidas, os equivalentes celtas a sacerdotes ou xamãs, acreditavam que as árvores tinham poderes sobrenaturais e até o horóscopo celta era baseado em árvores. Assim como ocorreu com seus paralelos em Westeros, a religião dos celtas se manteve forte e arraigada no Norte (Escócia) mesmo muito tempo depois da chegada de uma nova religião do além-mar (a fé nos Sete e o cristianismo, respectivamente).
Quando Jorah Mormont sequestra Tyrion Lannister e ambos viajam em um pequeno barco por entre as ruínas valirianas, Jorah olha para aquela paisagem maravilhado e se pergunta como os valirianos eram capazes de construir estruturas de pedra que durassem tanto tempo. A todos os fãs de Bernard Cornwell nesse momento (dentre os quais eu me incluo) certamente veio à cabeça alguma cena das Crônicas de Artur ou das Crônicas Saxônicas em que algum dos personagens também olha maravilhado para as ruínas romanas na Inglaterra e se pergunta como aquelas estruturas de pedra podem ainda ficar de pé por séculos enquanto as construções de madeira dos saxões ou nórdicos só duram algumas décadas, no máximo. Sim, Valíria é o paralelo romano das Crônicas de Gelo e Fogo, com conhecimentos de Arquitetura extremamente avançados que permitiam construir usando pedras, uma cultura refinada e armas poderosas – refletidas no universo de George R. R. Martin sob a forma do muito valorizado aço valiriano. Roma caiu por causa das invasões bárbaras e da crise no modelo escravista que era a base de sua economia, e que começava a ruir com a expansão do cristianismo, enquanto a Valíria foi destruída por um grande desastre natural inspirado na erupção do Vesúvio que destruiu Pompéia, mas de qualquer forma há um paralelo entre duas civilizações avançadas que sucumbiram deixando para o futuro apenas suas ruínas e a influência sobre os povos que viriam em seguida, para quem representavam ideais que jamais seriam alcançados.

Tyrion e Jorah passam por Valíria e contemplam as ruínas do que outrora foi um grande império


A invasão dos ândalos guarda importante paralelo com a invasão da Grã-Bretanha pelos saxões, nos séculos V e VI. Assim como os ândalos, os saxões tinham armas de ferro e trouxeram consigo uma nova religião. É verdade que o cristianismo já havia chegado à Grã-Bretanha antes, durante o período romano, mas apenas como religião praticada por cidadãos romanos vivendo na ilha. Quando o Império Romano abandonou a província no início do século V, pouco restou. Só no fim do século V e início do século VI a fé cristã chegaria em definitivo às Ilhas Britânicas, justamente com os saxões, anglos e jutas que saíram do que hoje é o norte da Alemanha para invadir e colonizar a Grã-Bretanha e difundir o cristianismo para o restante do arquipélago. Mais ou menos como os ândalos fizeram ao trazer a fé nos Sete para Westeros.
A última invasão de Westeros, pelos roinares, tem seu paralelo nos normandos, que podem não ter invadido a Grã-Bretanha com dez mil navios, mas têm uma história provavelmente tão fantástica quanto. Ela começa em 911, quando um viking chamado Rollo (ou Hrolf, em sua versão nórdica) saqueou o litoral norte da França. A região havia se tornado alvo preferencial de ataques dos vikings, já que na Inglaterra os líderes locais haviam começado a aprender como se defender dos saques ao criar fortificações chamadas burhs para proteger suas cidades e vilas, inviabilizando a estratégia viking de desembarcar-saquear-e-fugir-antes-das-forças-locais-chegarem. A cidade de Paris havia sido saqueada duas vezes, em 845 e 885. Para tentar proteger o reino da Frância Ocidental de novos ataques, o rei Carlos o Simples concedeu o território que hoje corresponde à Normandia (significando literalmente terra dos homens do norte) a Rollo. Em troca ele se converteria ao cristianismo, se casaria com uma das filhas de Carlos e protegeria o litoral contra outras incursões dos vikings. Rollo aceitou, e ele e seus descendentes normandos passaram a governar a região a partir de então. Como nessa altura do campeonato havia nórdicos dos dois lados do Canal da Mancha e a nobreza europeia costumava se casar entre si para assegurar territórios, em 1066 um descendente de Rollo que tinha o sofrível apelido de Guilherme o Bastardo invadiu a Inglaterra julgando ser ele próprio o legítimo herdeiro da coroa inglesa. Conseguiu apoio do Papa e encomendou uma enorme peça de propaganda sob a forma de uma tapeçaria de 70 metros de comprimento (que hoje está em Bayeux, na França), e cruzou o Canal da Mancha para invadir a Inglaterra. Que já estava sendo invadida.
Por um viking.
Harald Hardrada foi o último dos guerreiros pagãos da Escandinávia a lançar-se ao mar para saquear e conquistar. Julgando-se também legítimo herdeiro do trono inglês, invadiu a Inglaterra em 1066 pelo norte com milhares de guerreiros vikings e foi derrotado pelo rei Haroldo II (que era o atual dono da coroa cobiçada por Harald Hardrada e Guilherme) na batalha da Ponte de Stanford (segundo a lenda, após matar sozinho 40 ingleses). Mal Haroldo II conseguira se recuperar da batalha, Guilherme invadiu a ilha pelo sul. Os dois se encontraram em Hastings, e Haroldo foi morto na batalha (segundo a lenda, com uma flecha no olho). Guilherme pôde enfim reinar na Inglaterra e largar a alcunha de bastardo. A partir de então, passou a ser conhecido como Gulherme, o Conquistador.
Representação da morte de Haroldo II na Tapeçaria de Bayeux


A invasão normanda foi o último episódio na formação do que conhecemos hoje como o Caldeirão Inglês (English Melting Pot), a mistura de culturas que deu origem aos ingleses atuais – celtas, romanos, anglo-saxões, nórdicos e normandos – tornando ridícula qualquer afirmação de que exista supostamente um inglês “puro”. Da mesma forma, os roinares foram os últimos dos povos de Essos a invadir Westeros e a participar da formação dos Sete Reinos, estabelecendo-se no sul, principalmente em Dorne.


-A muralha
Ao contrário dos outros tópicos, cujos paralelos são um tanto livres, a muralha de gelo não é. O próprio George R. R. Martin admitiu em uma entrevista https://www.sfsite.com/01a/gm95.htm que teve a ideia ao visitar a Muralha de Adriano no norte da Inglaterra, quase na fronteira com a Escócia. “A inspiração para a Muralha vem certamente da Muralha de Adriano, que vi quando visitei a Escócia. Eu fiquei de pé na Muralha de Adriano e tentei imaginar como seria ser um soldado romano enviado para lá da Itália ou da Antióquia. Ficar ali, olhar à distância, sem saber o que poderia emergir da floresta. Claro que a fantasia é mais vívida e maior que a realidade, então a minha muralha é mais alta, consideravelmente mais longa e mais mágica. E claro, o que há além dela tem que ser mais do que apenas escoceses.”

A Muralha de Adriano sobre um penhasco, na Escócia

Construída como uma barreira para impedir que os “escoceses bárbaros e selvagens” invadissem o território romano na Grã-Bretanha, ela podia não ser feita de gelo nem ser tão grande e imponente quanto a da série e dos livros, mas também era guardada por soldados (romanos) que muitas vezes vinham de muito longe, embora não existisse nenhuma ordem como a Patrulha da Noite. Era feita de pedra e em grande parte construída logo atrás de uma série de penhascos, tornando-a mais difícil de ser rompida e transposta. É claro que, com o passar de quase dois mil anos e com locais no período de lá para cá usando os blocos para construir casas, muros e igrejas, grande parte da estrutura não existe mais. Mas o que ainda está de pé pode dar uma ideia de que era essa muralha.
Além da muralha, estavam tribos célticas, entre elas os pictos e os escotos, que dariam origem ao que hoje são os escoceses. Tidos como guerreiros formidáveis e que sabiam fazer bom uso do terreno montanhoso e acidentado das Highlands, eles resistiriam a invasões de romanos e futuramente de nórdicos e de ingleses. Porém, para os romanos, eram tidos como bárbaros, primitivos e iletrados, sem costumes, verdadeiros selvagens. Nada muito diferente de como a Patrulha da Noite via os povos-além-da-muralha.
Até onde se sabe, não havia caminhantes brancos para além da Muralha de Adriano.



-Stark vs Lannister

Continuando com os paralelos entre Westeros e a Grã-Bretanha, chegamos ao evento que serviu como principal inspiração para a trama da série e dos livros: a Guerra das Rosas. Não sem motivo, Lannister e Stark têm uma sonoridade muito parecida com as duas casas que se digladiaram na Inglaterra por décadas, os Lancaster e os York. Basicamente, tudo aconteceu quando, após os 116 anos de conflito intermitente que passaram para a História como a Guerra dos Cem anos, o rei Henrique VI da Inglaterra – considerado fraco, incapaz e possivelmente portador de algum distúrbio mental – cedeu aos franceses alguns dos territórios que haviam sido conquistados. Parte da nobreza inglesa, sob a liderança da casa de York, considerou esse um ato de fraqueza ou mesmo traição orquestrado pela casa de Lancaster – à qual pertencia a maior parte dos conselheiros do rei, inclusive ele próprio. Foram anos de guerra civil, intrigas políticas, traições e reviravoltas (sugiro a leitura da excelente série de ficção histórica do Conn Iggulden, A Guerra das Rosas, para quem quiser um excelente romance sobre esse período) que começaram em 1455 e duraram até 1487 com a ascensão dos Tudor. A trama é muito complexa, com muitos personagens, batalhas e eventos, por isso nem pensarei em detalhar aqui, mas a ideia de casas diferentes lutando pelo controle de uma coroa (ou de um trono de ferro) deu origem ao pano de fundo da história contada por George R. R. Martin.


-Dothraki
Nem só de paralelos com a História britânica vivem as Crônicas de Gelo e Fogo. Os dothraki, por exemplo, são inspirados em diversos povos nômades da Ásia Central e do leste da Europa, como os hunos, os avaros, os citas, os tártaros e os mongóis. Todos eles habitavam as vastas estepes da Eurásia, que se estendem da Ucrânia e da Moldávia à Mongólia e a China atuais, e são compostas principalmente de um terreno relativamente plano e coberto predominantemente por gramíneas ou no máximo por arbustos – ou seja, sem florestas. Nessa imensa área aberta, ter um cavalo era a melhor maneira de se deslocar por longas distâncias, e muitas vezes significava a diferença entre a vida e a morte. Não por acaso, foi nessa região que, há pelo menos 5.500 anos, o cavalo foi domesticado pela primeira vez. Desde então, sua importância socioeconômica para os povos nômades das estepes tem sido inegável. O próprio estilo de vida nômade e a subsistência a partir do pastoreio se tornam muito mais fáceis (ou menos difíceis, eu diria) quando se está sobre um cavalo. Os equinos se tornaram também uma importante arma de guerra, permitindo ataques muito mais ágeis e possibilitando o surgimento de alguns dos mais temidos guerreiros que já existiram. A invenção do estribo (também ocorrida na mesma região, milênios depois) elevou as hordas de cavaleiros nômades a outro nível, porque dali em diante era possível se apoiar sobre o cavalo com os pés e utilizar as duas mãos para manejar uma arma (atirar uma flecha com um arco, por exemplo). Tribos nômades frequentemente guerreavam entre si e saqueavam acampamentos de rivais, cidades e comunidades agrícolas em busca de riquezas e, às vezes, de escravos. Poucos eram aqueles que poderiam resistir a uma horda de guerreiros montados em seus cavalos.
Sendo tão importante para o modo de vida dos nômades das estepes, não é de se estranhar que o cavalo tenha sido também uma figura central em sua cultura. Para os mongóis, por exemplo, o cavalo era fonte de alimento (carne de cavalo ou do queijo produzido a partir do leite de égua) e mesmo a bebida alcoólica tradicional, o airag, era feita à base de leite de égua fermentado. Em povos nômades do atual Cazaquistão, era comum que os túmulos de pessoas importantes (provavelmente grandes guerreiros) recebessem também os restos mortais de seus cavalos.
Essa relação íntima com os cavalos também pode ser vista nos dothraki. Todo guerreiro que se preze deve ter seu cavalo e “nascer, lutar e morrer em uma sela”, e um dothraki incapaz de montar um cavalo por estar muito ferido ou doente é abandonado e largado para morrer. Obrigar uma pessoa a descer do seu cavalo e caminhar a pé, como foi feito com Viserys, é considerado uma grande humilhação. E o ritual de comer o coração cru de um cavalo para dar força e vitalidade ao bebê no ventre da mãe, como retratado no livro e na série, é mais uma prova do poder que os dothraki atribuíam à sua montaria.
Assim como os povos que os inspiraram no nosso mundo, os dothraki se dividem em diversas tribos nômades menores que vagam pela grande estepe conhecida como mar dothraki. Assim como os mongóis, hunos e citas, são considerados guerreiros formidáveis, mas são “incapazes de atravessar o Mar Estreito” (como foi dito diversas vezes na série). Para fazer mais um paralelo, quando os mongóis tentaram atravessar o mar para invadir o Japão, foram derrotados duas vezes. Em uma delas, um tufão destruiu a frota mongol. Isso deu origem ao mito do “vento divino” (kamikaze) e reforçou a ideia corrente no Japão até o fim da Segunda Guerra Mundial de que os japoneses são um povo escolhido, superior e, portanto, invencível.


-“Coroa de Ouro” fervente
Uma cena marcante da primeira temporada foi a execução de Viserys, o irmão da Daenerys, com uma “coroa de ouro”. Ele, que pretendia inicialmente forjar uma aliança com os Dothraki através do casamento da irmã para invadir Westeros, derrubar o usurpador Robert Baratheon e conseguir para si a coroa a que tinha direito, tornou-se cada vez mais petulante e, no fim das contas, os dothraki acabaram dando a ele outra “coroa”: derramaram ouro fundido sobre sua cabeça, matando-o com o calor do metal fervente. Uma morte horrível e que parece ter saído da mente criativa de George R. R. Martin. Mas pode ter tido inspiração em um evento real.
No final da República romana, um acordo tripartite entre três personalidades proeminentes na política romana deu origem ao primeiro Triunvirato. Ele era composto por Júlio César, militar romano que havia sido designado para a província da Hispânia e ganhou grande influência após as vitórias militares na região; Pompeu Magno, um dos mais destacados e famosos generais romanos (e um dos responsáveis pelo exílio de Júlio César na Gália); e Marco Licínio Crasso, o homem mais rico de Roma. Todos eram influentes e poderosos mas, ao contrário dos outros dois, Crasso não possuía nenhuma vitória militar em seu currículo. Desejando tornar-se mais influente e talvez desbancar os outros dois rivais – ou pelo menos estar no mesmo nível do que eles – Crasso planejou uma grande campanha militar para invadir a Pérsia (na época sob o Império Parta) a partir dos territórios da Síria-Palestina, no extremo oriental dos domínios romanos.
No entanto, apesar de todo o dinheiro, faltava a Crasso habilidade como estrategista. Ao invés de invadir o território parta pelo Cáucaso, como havia sido sugerido pelo seu aliado rei Artavasdes da Armênia, Crasso optou por cruzar o deserto e invadir os partas pela Mesopotâmia, ambicioso por capturar as ricas e famosas cidades da região. Durante uma incursão pelo deserto, próximo a um vilarejo chamado Carras (ou Carrhae), as forças de Crasso foram surpreendidas e derrotadas por um exército parta muito menor, mas foram fragorosamente derrotadas, inclusive com o filho de Crasso morrendo na batalha. Estima-se que vinte mil soldados romanos tenham sido mortos e dez mil tenham sido capturados. O desastre deu origem ao termo “erro crasso”, ou seja, um erro inadmissível e grosseiro com consequências trágicas.
Os partas enviaram um emissário para negociar com Crasso. Eles queriam que Roma entregasse todos os territórios a leste do rio Eufrates, e em troca, permitiriam que Crasso e seus soldados voltassem em segurança para a Síria romana. Crasso permaneceu relutante e, no fim das contas, a negociação terminou em confusão. Há quem afirme que Crasso tentou subornar os partas e, para ridicularizar sua sede por riqueza, eles o mataram derramando ouro fervente em sua boca. Há outras versões para a história, algumas afirmando que Crasso foi morto durante a confusão e o ouro foi derramado em sua boca após sua morte. De qualquer forma, a lenda teria sido suficiente para inspirar George R. R. Martin.
Outro episódio muito parecido pode ter ocorrido na Idade Média, não com ouro, mas com prata. Em 1218, Gênghis Khan havia unificado os mongóis e sua horda formidável já iniciava a invasão da China – que só seria completa com seu neto Kublai Khan. Uma caravana com um emissário mongol foi enviada ao Império Corásmida, correspondendo ao que hoje são o sul do Cazaquistão, o oeste do Afeganistão, o Irã e as outras ex-repúblicas soviéticas no meio deles. O Império Corásmida era muito rico porque em seu território estavam cidades prósperas como Merv, Bukhara e Samarcanda, por onde passava a Rota da Seda que ligava a Europa à China. O objetivo era que os corásmidas reconhecessem o império mongol como uma das forças ascendentes na região e começassem a fazer comércio. Porém, um “pequeno desentendimento” ocorreu quando a caravana chegou à cidade corásmida de Otrar. Alegando que havia espiões na caravana, o governador de Otrar, Inalchuk, prendeu e executou os membros da caravana e vendeu os bens que ela carregava. Enfurecido, Gênghis Khan enviou uma delegação ao sultão corásmida, que era sobrinho de Inalchuk, exigindo um pedido de desculpas e que Inalchuk fosse punido – leia-se, executado. O sultão decapitou um membro da delegação que era muçulmano e humilhou os outros dois, que eram mongóis, raspando as suas barbas. Diante dessa segunda provocação, Gênghis Khan invadiu o Império Corásmida. Muitas cidades se renderam rapidamente, mas Otrar resistiu ao cerco por cinco meses. Quando os mongóis invadiram a cidade, Inalchuk tentou se abrigar em uma torre juntamente com alguns dos seus guardas que haviam sobrado, e de lá começaram a arremessar tijolos nos mongóis que tentavam capturá-los. Quando finalmente Inalchuk foi capturado, tentou desesperadamente oferecer todo o seu tesouro aos mongóis em troca de sua vida. Mas os mongóis jamais perdoariam as duas ofensas que haviam sofrido. Pegaram parte da prata que Inalchuk entregou, puseram em um caldeirão, derreteram e derramaram o metal líquido sobre a cabeça de Inalchuk. A história está presente também na excelente série de livros de ficção histórica de Conn Iggulden, O Conquistador.



-O Titã de Braavos
Essa é uma referência bastante óbvia, embora a fantasia tenha multiplicado o correspondente histórico da mesma forma como fez com a Muralha. O Titã de Braavos foi inspirado no Colosso de Rodes, uma das sete Maravilhas do Mundo Antigo que ficava na ilha de mesmo nome, ao sul da atual Turquia. O Colosso original foi erguido em 280 a.C, para comemorar uma vitória militar sobre o Chipre, e permaneceu de pé até 226 a.C quando foi destruído por um terremoto. No entanto, não era nem de longe das mesmas dimensões que o Titã de Braavos. Provavelmente tinha cerca de 33 metros de altura, mais ou menos o mesmo tamanho da Estátua da Liberdade. E assim como ela, o Colosso era todo revestido por bronze.
O Colosso de Rodes, em ilustração do século XVI (muito tempo depois de ele ser destruído)



-O Casamento Vermelho
Uma das cenas mais chocantes e sangrentas de toda a série Game of Thrones foi o Casamento Vermelho. Assassinar convidados em cerimônias como casamentos, coroações ou em qualquer situação similar era tido como altamente desrespeitoso e malvisto, e por algum motivo não costumava ajudar muito a alavancar a reputação do hóspede.
No entanto, ao longo da História houve sim alguns episódios de massacres e assassinatos durante jantares, casamentos e outras cerimônias. O registro mais próximo de algo que se assemelha ao Casamento Vermelho aconteceu na Escócia do século XV. Em 1437, o rei James I da Escócia morreu de forma bastante suspeita (não, não há registros sobre torta de pombo), deixando o trono para seu filho James II, de apenas seis anos. O regente de James II era um nobre influente, o conde Arquibaldo de Douglas. No entanto, Arquibaldo morreu vítima da peste negra pouco tempo depois. Foi a oportunidade para que dois ambiciosos nobres escoceses, William Crichton e Alexander Livingston, ganhassem influência sobre James II e sobre o reino da Escócia. Tentando se livrar de opositores, os dois chegaram a ordenar a prisão da mãe do pequeno rei James II, só devolvendo sua liberdade após ela ceder a custódia do rei aos dois nobres.
Mas havia duas outras pessoas que eram tão influentes sobre o pequeno James quanto sua própria mãe: os filhos de Arquibaldo. O mais velho, William, tinha dezesseis anos, e o mais novo, David, tinha doze. Ambos eram muito próximos do rei James II e o monarca os via como exemplos a ser seguidos, quase como uma idolatria. Além disso, os dois eram herdeiros do clã dos Douglas, e teriam em breve o controle sobre um dos maiores exércitos da Escócia. Crichton e Livingston sabiam que os irmãos poderiam fazer o rei se voltar contra eles ou pelo menos limitar sua influência, e conspiraram para matar os dois garotos.
Em novembro de 1440, Crichton e Livingston convidaram os irmãos Douglas para um jantar no castelo de Edinburgo. No meio do evento, guardas fecharam as portas do salão com suas alabardas. A banda não tocou As Chuvas de Castamere, mas foi servida a cabeça de um touro negro sobre uma bandeja - o que, na Escócia medieval, significava a morte de um dos convidados. Os dois irmãos foram levados ao pátio interno do castelo, julgados traidores por Crichton e Livingston, e decapitados ali mesmo. Na frente do rei James, que viu tudo. O episódio ficou conhecido como o Jantar Negro. Depois que James II chegou à idade adulta, os clãs Crichton e Livingston perderam gradativamente sua influência para o próprio clã Douglas - embora não haja registro de Crichton e Livingston como ingredientes de nenhuma torta nos anos seguintes.


-Escamagris
No universo de Game of Thrones e das Crônicas de Gelo e Fogo, a escamagris é uma doença altamente contagiosa que deixa a pele com um aspecto liquenificado, escamoso, e se dissemina pelo corpo até tomar o indivíduo completamente e, por fim, deixá-lo louco. Temendo o contágio, as autoridades de Westeros e Essos enviam todos aqueles com escamagris para as ruínas da Valíria, para que permaneçam lá até morrer - sem colocar nenhuma pessoa sã em perigo.
O paralelo que podemos fazer em nosso universo é a hanseníase, conhecida nos tempos antigos como lepra. Embora a chance de contágio seja muito, muito menor do que a da escamagris, os povos antigos não sabiam como lidar como a doença e também condenavam as vítimas a um exílio fora das cidades, em cavernas ou em comunidades chamadas leprosários. A hanseníase merece um texto inteiro para si, mas adianto que a transmissão do Mycobacterium leprae exige contato íntimo por bastante tempo, de forma similar à sua prima, a Mycobacterium tuberculosis. Os efeitos da hanseníase no organismo são muito dependentes do tipo de resposta imunológica que o indivíduo consegue elaborar, e os casos "de livro" com deformidade e perda de dedos de mãos e pés e desfiguração do rosto geralmente ocorrem na forma virchowiana da doença, enquanto a forma tuberculoide tende a ser mais restrita. A escamagris parece ser bem mais agressiva do que a hanseníase, embora a personagem Shireen, que nasceu com a doença, tenha tido uma forma restrita a uma parte do rosto apenas. Teria ela alguma resposta imune diferenciada?
Segundo as descrições, a escamagris, após acometer todo o corpo, causa repercussões mentais e deixa a pessoa louca e termina por matá-la. Por sorte, isso não ocorre com a hanseníase mesmo em sua forma virchowiana, e as poucas pessoas que realmente morrem da doença o fazem em decorrência de infecções ósseas nos pés ou em outras partes do corpo devido às lesões causadas pela própria hanseníase. Lembrando que a hanseníase tem cura, e seu tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo SUS. 

A cura da hanseníase geralmente é menos dolorosa do que a da escamagris


-Os Greyjoy
Uma das famílias que dividem o poder em Westeros é a dos Greyjoy. Com seus domínios nas Ilhas de Ferro e uma lula gigante em seu escudo, eles são inegavelmente saqueadores dos mares. Piratas, ou - para fazer um paralelo com a Europa medieval - vikings. "Viking" não é a denominação de um povo, mas sim de uma atividade: saquear e roubar. Viking é um pirata nórdico, portanto. Detentores de avançadas tecnologias de construção naval e capazes de atacar, saquear e fugir rapidamente, aterrorizaram a Europa, o norte da África e o Oriente Médio desde o primeiro ataque ao mosteiro de Lindisfarna em 793 até meados do século XII, quando os últimos escandinavos se converteram ao cristianismo e abandonaram as atividades de saque.
Os Greyjoy fazem basicamente a mesma coisa na série. Vivem de saquear reinos e cidades da vizinhança. Seu lema deixa isso bem claro: "nós não semeamos". Os outros semeiam, eles colhem. Ou seja, seu modo de vida é se apropriar do que os outros conseguiram com trabalho ou comércio. "Pagar o preço do ferro" (o saque) é mais honroso do que "pagar o preço do ouro" (a obtenção através do comércio). Mais vikingo do que isso, impossível. 


-Incesto
Em Westeros, tanto na série quanto nos livros, o incesto é um tabu, da mesma forma como é no nosso universo. No entanto, tanto lá como aqui, algumas vezes ele foi praticado e às vezes até mesmo encorajado. Em Roma, uma sociedade onde o incesto não era bem-visto, Calígula manteve relações com suas três irmãs, reforçando sua imagem de depravado e louco. Uma reação similar àquela que ocorreu quando foi revelada a relação entre a rainha Cersei e seu irmão Jaime Lannister, e que deu origem a praticamente toda a disputa pelo trono dentro de Westeros dali em diante.
No entanto, entre os Targaryen, o incesto é algo perfeitamente normal, e muitos membros da dinastia se casavam com seus irmãos, primos ou tios sem qualquer tipo de tabu, em uma estratégia para conservar o poder evitando que membros de outras dinastias com as quais os Targaryen tivessem laços de casamento pudessem clamar o direito ao trino para si. Por mais estranho que possa parecer, os egípcios fizeram isso por milênios, com o mesmo objetivo. E quando o general Ptolomeu assumiu o poder no Egito após a morte de Alexandre, o Grande, sua dinastia continuou a adotar o mesmo costume, e por isso a linhagem real ptolomaica continuava sendo 100% grega/macedônica mesmo após séculos governando o Egito. Cleópatra, que era da dinastia ptolomaica, era grega (e branca), enquanto os egípcios nativos - incluindo as dinastias do Antigo, Médio e Novo Impérios (com faraós como Tutmés, Quéops, Hatshepsut, Ankhenaton, Tutankhamon, Nefertiti e Ramsés) - eram de um tom de pele bem mais escuro. A própria Cleópatra, aliás, era casada com seu irmão Ptolomeu XII até Júlio César chegar e ambos conspirarem para assassinar o jovem faraó.
Além dos egípcios e da dinastia ptolomaica, o incesto era encorajado também pelo zoroastrismo, religião predominante entre os persas até a chegada do islã. Em especial, a relação entre primos - algumas vertentes condenavam a relação entre irmãos ou entre pais e filhos. Tanto nobres quanto sacerdotes e mesmo a população geral costumavam encorajar o casamento entre primos, e havia quem considerasse que os fluidos corporais de um casal de primos tinha caráter sagrado. Casar com alguém de fora da família era algo pouco usual entre os zorostristas.


-Fogovivo
Em vários momentos na série  nos livros, os personagens lançaram mão de uma substância mágica, altamente inflamável e volátil chamada fogovivo, que queima com uma chama verde e é capaz de penetrar até em madeira, aço e couro, queimando por longo tempo mesmo se tentarem apagar com água. Dizia-se inclusive que Aerys II Targaryen, o Rei Louco, havia armazenado uma enorme quantidade de fogovivo sob Porto Real e certamente mandaria a cidade pelos ares se Jaime Lannister não o tivesse assassinado. Parece coisa de ficção.

Fogovivo sendo usado na Batalha da Baía da Água Negra

Pois bem, os bizantinos tinham uma substância muito parecida. O famoso fogo grego não queimava verde, mas era uma substância líquida que não podia ser extinta pela água, apenas por areia, vinagre forte ou urina. Havia navios bizantinos equipados com sifões, verdadeiros lança-chamas capazes de incendiar outros navios, e graças a eles o Império Romano do Oriente conseguiu resistir por muito tempo às incursões dos árabes e dos turcos seljúcidas. Também havia granadas incendiárias e projéteis de catapulta cheios de fogo grego. A receita para a substância era mantida em segredo absoluto, tanto que ela se perdeu com a tomada de Constantinopla - historiadores tentam chegar em um acordo sobre a sua composição, e a maioria acredita que um dos seus componentes tenha sido o petróleo. 

Representação de um navio bizantino lançando fogo grego sobre um inimigo

-Dragões
Não. Apesar de presentes em muitas culturas, da Europa à China, não há registros de dragões em nosso mundo, infelizmente.


-"O inverno está chegando"
No mundo das Crônicas de Gelo e Fogo, as estações tem um período variável que pode durar muitos e muitos anos. Até hoje (ou seja, até o quinto livro e o fim da sétima temporada), George R. R. Martin ainda não explicou por que isso acontece, embora muitos fãs acreditem que haja alguma razão ligada à magia.
Comparado à série, o clima da Terra é relativamente estável, mas já teve seus solavancos. Entre os séculos XVII e XIX, três pequenas "eras do gelo" ocorreram na Europa, e em algumas delas alguns dos principais rios chegaram a congelar. Explicações para esses eventos levam em consideração alterações na salinidade dos oceanos, vulcões lançando cinzas na atmosfera e alterações breves no eixo de rotação da Terra, entre outros fenômenos. Uma "pequena era do gelo" similar conhecida como Dryas Recente, provocada possivelmente por alteração na salinidade das correntes marítimas do Atlântico Norte onze mil anos atrás, causou a desertificação do Oriente Médio e provavelmente impulsionou a Humanidade para o desenvolvimento da agricultura.
Oscilações mais longas, conhecidas como glaciações, ocorrem periodicamente na História da Terra. a última tendo durado de 115 mil até 11 mil anos atrás, terminando justamente com o Dryas Recente. Essas glaciações são atribuídas a alterações no eixo de rotação da Terra. Nosso planeta não gira totalmente paralelo ao Sol, mas sim com uma inclinação de 23,5°, que permite as estações do ano, inclusive. No entanto, esse ângulo pode se alterar - e costuma se alterar de vez em quando - com repercussões sobre o clima global. Não se sabe exatamente o que provoca essas alterações, talvez uma mudança no campo magnético da Terra.
E sim, temos também o efeito antrópico - ou seja, o lançamento de gás carbônico na atmosfera pelas atividades humanas. Gases sabidamente capazes de reter calor, como o gás carbônico e o metano, que em excesso podem transformar a Terra em Vênus e em quantidade muito pequena nos fariam parecidos com Marte, estão sendo lançados continuamente na atmosfera. O gás carbônico, que manteve sua concentração entre 200 e 300 partes por milhão no último milhão de anos segundo as amostras de ar presas no gelo da Antártida, saltou nos últimos dois séculos para 400 partes por milhão, com as temperaturas globais acompanhando a trajetória para cima. Todo o carbono aprisionado na crosta terrestre no último bilhão de anos sob a forma de carvão e petróleo está voltando para a atmosfera rapidamente, e as repercussões de uma mudança tão drástica na composição atmosférica certamente não são boas - e já começam a ser sentidas.
Inclusive, o próprio George R. R Martin já afirmou em uma entrevista ao New York Times que a história das Crônicas de Gelo e Fogo tem um paralelo com a questão das mudanças climáticas no mundo real.
"As pessoas em Westeros estão lutando suas próprias batalhas individuais por poder, status e riqueza. E estão tão distraídas que ignoram a ameaça de que 'o inverno está chegando', que tem o potencial de destruir todos eles e destruir o mundo deles. E existe um grande paralelo lá, eu imagino, com o que vejo neste planeta aqui, onde estamos lutando nossas próprias batalhas. Estamos lutando por questões, questões importantes, é bom lembrar - política interna, política externa, direitos civis, responsabilidade social, justiça social. Todas essas coisas são importantes, mas enquanto estamos nos digladiando sobre elas e gastando tanta energia, existe essa ameaça das mudanças climáticas que, para mim, é conclusivamente provada pela maioria dos dados e por 99,9% da comunidade científica. E realmente tem o potencial de destruir nosso mundo. E estamos ignorando isso enquanto nos preocupamos com a próxima eleição e com questões como empregos. Claro, empregos são uma questão muito importante, todas essas questões são importantes. Mas nenhuma delas é importante se estivermos mortos e nossas cidades estiverem debaixo do oceano. Então realmente, as mudanças climáticas devem ser uma prioridade número um para qualquer político capaz de enxergar além da próxima eleição. Mas infelizmente só há um punhado deles. Gastamos dez vezes mais energia, intelecto e debate em questões como se jogadores da NFL devem se levantar para o hino nacional do que para essa ameaça que irá destruir o mundo."


É claro que existem muitos, muitos outros paralelos entre As Crônicas de Gelo e Fogo e nossa História e nosso mundo, mas citar todos seria impossível (e renderia um texto ainda maior). Os paralelos entre Brunilda e Cersei, por exemplo. Ou Tyrion e Ricardo III. Nada disso diminui o valor da série e dos livros - pelo contrário! Eu acho particularmente fascinante uma obra pegar um evento histórico, transformá-lo e explorar outras facetas ou alternativas que não ocorreram na realidade mas poderiam ter acontecido. As Crônicas de Gelo e Fogo e Game of Thrones fazem isso, e colocando dragões no meio!
Agora, vamos acompanhar a última temporada da série e esperar que algumas das grandes questões que permanecem desde o começo sejam reveladas. Se nem tudo ficar claro, aguardemos os últimos dois livros.
Quem viver verá.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Uma fábula sobre coelhos


Em meados do século XIX, a Austrália passava por um novo ciclo de colonização. O território, que inicialmente era uma colônia penal, começava a receber mais e mais cidadãos ingleses, escoceses e irlandeses, em parte devido à descoberta de ouro e em parte pela expansão da criação de gado até o interior australiano. Um desses colonizadores britânicos era Thomas Austin, um apaixonado por caça cujo hobby vinha desde a juventude na Inglaterra. Em dezembro de 1859 ele levou para a Austrália doze casais de coelhos europeus (Oryctolagus cuniculus) para que servissem como caça e dessem um clima mais “europeu” à sua propriedade australiana. Que mal poderia acontecer, não é mesmo? Outros colonos fizeram a mesma coisa nos anos seguintes, soltando mais coelhos em suas fazendas. Os pequenos animais já haviam sido introduzidos antes na Austrália, mas para servir de alimento e, na maior parte das vezes, criados em cativeiro, e por isso sua população se manteve estável. Depois de Thomas Austin, não mais. Sem predadores naturais e se reproduzindo livremente no ritmo pelo qual os coelhos são famosos por se reproduzir, logo sua população explodiu. Dizer que a situação “saiu do controle” é eufemismo. Em menos de um século, eles já eram mais de meio bilhão, tornando-se provavelmente o caso mais dramático de uma espécie invasora em toda a História. Viraram uma verdadeira praga. Competiam com os marsupiais nativos por alimento, destruíam a vegetação expondo o solo à erosão, devastavam plantações e pastagens para o gado... A ameaça chegava até mesmo à acácia, a planta-símbolo da Austrália (e o motivo pelo qual o verde e o amarelo estão em todos os uniformes de atletas australianos, mesmo que essas cores não estejam na bandeira do país): os coelhos comiam os brotos dos espécimes mais jovens e não permitiam que eles se desenvolvessem.
Era preciso conter os coelhos antes que eles acabassem com a Austrália. Tentou-se de tudo: armadilhas, veneno, cercas de contenção... Nada funcionou, ou pelo menos não funcionou bem o suficiente para evitar que a praga se alastrasse ainda mais. Foi então que alguns cientistas, liderados por um microbiologista australiano chamado Frank Fenner, tiveram uma ideia digna de filme de apocalipse zumbi: liberar um vírus altamente letal, capaz de eliminar todos (ou quase todos) os coelhos que infestavam a Austrália. E não só a Austrália: a Inglaterra e outros países da Europa também enfrentavam problemas causados por explosões populacionais de coelhos. Vieram buscar no Brasil um vírus que tinha como hospedeiro natural uma espécie de coelho nativa do cerrado brasileiro (Sylvilagus brasiliensis), o mixomavírus. Embora não causasse praticamente nenhum sintoma nos coelhos sul-americanos (o que era de se esperar para um organismo que é o reservatório natural do vírus), era devastador contra os coelhos europeus, dando origem a nódulos gelatinosos – chamados mixomas –  que se abriam em úlceras na pele, nas mucosas e nos órgãos internos, levando à morte em até duas semanas. Projeções baseadas em estudos de laboratório falavam em 99% de letalidade. Além disso, o vírus era transmitido através da picada de mosquitos, o que significava que poderia chegar a populações de coelhos sem precisar de contato direto entre cada um deles. A introdução dos mosquitos contendo o vírus foi debatida e considerada polêmica na época, mas ainda assim foi tentada repetidas vezes na primeira metade do século XX. Por razões provavelmente ligadas ao clima e à quantidade de mosquitos, a circulação do mixomavírus na Austrália só ocorreu de fato a partir do início da década de 1950 – e se mantém até hoje. Mais ou menos na mesma época, também foi introduzido na Europa. Foi um sucesso estrondoso: na Austrália, a letalidade chegou a 99,8% no primeiro ano, e em determinados locais mais de 90% dos coelhos morreram (ou seja, com raríssimas exceções, aqueles que sobreviveram foram os que por algum motivo não tiveram contato com o vírus). Estima-se que essa primeira introdução com sucesso do vírus na Austrália, o número de coelhos caiu de 600 milhões para algo como 100 milhões. No entanto, nos anos seguintes a letalidade do mixomavírus foi diminuindo. A cada ano que passava, uma proporção cada vez menor de coelhos morria em decorrência do vírus liberado para controlá-los. Alguma forma de resistência genética ao mixomavírus havia surgido entre os coelhos e se tornado mais comum por um mecanismo de seleção natural, pensaram os cientistas. Ou seja, ao longo dos anos os coelhos resistentes sobreviviam e se multiplicavam, tomando o lugar dos suscetíveis que morriam em massa. Era o que se poderia esperar de uma adaptação entre um hospedeiro e um micro-organismo, certo?
Análises posteriores indicaram que a causa dessa queda inicial na taxa de letalidade do vírus realmente estava ligada à seleção natural. Mas não dos coelhos, e sim do mixomavírus. Os pesquisadores que acompanhavam a epidemia descobriram que o vírus inicial havia dado origem a cinco cepas diferentes, que foram denominadas de I a V baseadas em sua letalidade. A cepa I era a mais agressiva e tinha uma letalidade de 100%, matando em menos de 13 dias. A cepa II tinha mortalidade entre 95 e 99%, levando à morte entre 13 e 16 dias. A cepa III, de letalidade mais moderada, matava entre 70 e 95% dos coelhos, e o fazia entre 17 e 28 dias após o início da infecção. A cepa IV tinha letalidade entre 50 e 70%, e as mortes ocorriam de 29 a 50 dias depois do contato com o vírus. Por fim, a cepa V era a mais branda, com letalidade menor de 50% e sem um período específico para as mortes (não se engane, leitor: 50% de letalidade ainda é muita coisa, e poucas epidemias na História da espécie humana já chegaram a esse ponto; mas para um vírus introduzido especificamente para eliminar ou controlar uma espécie, é possível dizer que 50% de letalidade significa uma letalidade branda). E embora a circulação da cepa I tenha diminuído com o passar do tempo, não houve aumento da cepa V – pelo contrário, eles circulavam cada vez menos ao longo dos anos. Contrariando as previsões daqueles que acreditavam que o vírus diminuiria cada vez mais de letalidade, a cepa mais prevalente, e que se tornou ainda mais comum durante o período de estudo, foi a cepa III, seguida da IV. Por que? Coelhos com as cepas I e II, a mais agressivas, morriam muito rápido – tão rápido que o período em que conseguiam infectar um mosquito para que ele transmitisse o vírus a outros coelhos era muito curto. Por outro lado, coelhos da cepa V viviam bastante tempo, mas suas lesões eram muito pequenas e não havia uma quantidade suficiente de vírus circulando em seu organismo para que um mosquito se infectasse e transmitisse a outros coelhos. As cepas III e IV, que ficavam no meio do caminho, mantinham uma quantidade alta de vírus (não tão alta quanto no caso das cepas I e II, mas suficientemente altas) circulando por tempo suficiente para que o mixomavírus chegasse a mais coelhos. Em resumo, a seleção natural escolheu as cepas mais eficientes em se multiplicar, e não as mais brandas. E isso não ocorreu apenas na Austrália: na Europa a emergência de cepas do mixomavírus seguiu um padrão muito semelhante.
Obviamente, após dez ou vinte anos, a seleção natural também começou a agir nos coelhos, e aqueles que tinham alguma característica genética que conferia resistência ao vírus foram substituindo os mais suscetíveis, e a sua população voltou a aumentar – passando de 100 milhões para algo entre 200 e 300 milhões, embora caça, veneno e cercas de contenção tenham ajudado a controlar a população de lagomorfos também (sim, leitor, essa é uma revelação bombástica: os coelhos não são roedores, são lagomorfos!). Enfim, a relação entre micro-organismos e hospedeiros seguiu seu curso natural e um lado “aprendeu” a tolerar o outro, não é mesmo? Não. A “corrida armamentista” deu uma verdadeira reviravolta e entrou em uma nova fase a partir da década de 1990. Mutações no código genético do mixomavírus deram origem a uma cepa que era incapaz de formar mixomas, mas que conseguia diminuir absurdamente a resposta inflamatória dos coelhos infectados. Uma ótima forma de escapar do sistema imunológico e continuar se proliferando no organismo do hospedeiro sem a resposta esperada por parte das células de defesa. Só que, ao diminuir a resposta inflamatória, o vírus prejudicava também a atividade do sistema imunológico contra outros micro-organismos, incluindo as bactérias da pele, das vias aéreas e da microbiota intestinal. Os coelhos começaram a morrer por causa de uma imunodeficiência grave, com uma queda dramática no número de linfócitos no baço e nos linfonodos, e com focos de infecção em órgãos como pulmões, fígado, baço, rins e coração, além de necrose nos linfonodos em torno do intestino. Sofriam um colapso rápido sob a forma de choque séptico, e apesar da infecção não desenvolviam febre – o que é compatível com um sistema imunológico tão fraco que é incapaz de promover uma resposta inflamatória. O mais curioso (ou bizarro) foi que isso começou a acontecer de forma independente nos coelhos europeus e nos australianos.
E esse provavelmente não é o fim da história. Nada impede que alguns dos coelhos tenham alguma característica genética que dificulte ou compense essa imunossupressão grave causada por essa nova cepa de mixomavírus, e que sobrevivam a ela voltando a povoar o interior da Austrália e os campos da Europa – pelo menos até a próxima etapa dessa corrida armamentista cheia de reviravoltas. No fundo, tanto os coelhos quanto o vírus estão tentando seguir à risca o que fazem todos os seres vivos deste planeta: sobreviver, gerar descendentes e perpetuar sua linhagem.

terça-feira, 5 de março de 2019

O "Paciente de Londres" - Será a cura da AIDS?

Neste dia 6 de março de 2019, noticiários do mundo todo anunciaram que um paciente foi curado do HIV após um transplante de células-tronco. Isso é bastante animador, mas não, não significa que encontramos a cura da AIDS. Não em larga escala. Difícil de entender? Aí vai o motivo:
O "paciente de Londres" (como tem sido chamado pela mídia internacional) era portador do HIV desde 2003 e começou a receber terapia antirretroviral em 2012 (nessa época a TARV ainda não era indicada para todos; apenas para quem tinha uma contagem de linfócitos T CD4 menor que 350, ou 500 por decilitro de sangue). Acontece que pouco tempo depois ele foi diagnosticado com um linfoma de Hodgkin em estágio avançado, e precisou de sessões de quimioterapia e, depois disso, ainda passou por dois transplantes de medula óssea.
Transplantes de medula óssea são uma coisa bizarra quando paramos para pensar sobre o que são de verdade. Uma quimioterapia extermina praticamente todas as células da medula óssea do indivíduo, que depois é reposta por células do doador. Importante: doador e receptor devem ser compatíveis (daí os apelos constantes para que pessoas se tornem doadoras de medula óssea - quanto mais gente for doadora em potencial, maior a chance de se encontrar alguém compatível com o possível receptor, ou seja, a pessoa que precisa do transplante). Por sorte, foi encontrado um doador que, além de compatível, tinha uma mutação bastante específica em um de seus genes. O gene da proteína de superfície CCR5, que o HIV utiliza para invadir as células do sistema imunológico e se abrigar no hospedeiro.
Toda célula do corpo é revestida por proteínas de superfície, que servem para inúmeras funções. Algumas servem como ancoradouro para outras células, outras como portas de entrada e saída por onde substâncias entram e saem da célula. A proteína CCR5 é um receptor de citocina, presente em algumas células do sistema imunológico. O que ela faz é, com uma extremidade para fora da membrana plasmática e outra para dentro, tal qual um prego que atravessa um pedaço de madeira, receber um sinal externo de um tipo de hormônio chamado citocina. Uma vez tendo recebido esse sinal pela sua extremidade externa (a cabeça do prego, para fora da célula), ela sinaliza com a parte interna (a ponta) que as proteínas do interior da célula devem realizar alguma função específica - multiplicar-se, ou mover-se até o local onde a célula está sendo requerida. Só que, por acaso, é justamente essa proteína em formato de prego que o HIV usa para se ligar e se fixar à célula-alvo, no caso o linfócito T ou (de forma menos importante) outra célula do sistema imunológico, como o macrófago ou a célula dendrítica.
Pois bem. O indivíduo que doou sua medula tinha uma mutação no gene que codificava a proteína CCR5. Sua proteína tinha um formato diferente, que o HIV era incapaz de reconhecer e, portanto, conseguir se ligar. Sem conseguir se ligar, ele não penetraria na célula. Sem penetrar, jamais a infectaria. Ou seja, o indivíduo que doou a medula óssea era imune ao HIV, e jamais contrairia a doença nem se fosse exposto ao vírus um milhão de vezes. Uma pequena porção de sua medula óssea foi extraída (provavelmente do osso da bacia, mais fácil de ser acessado pela agulha), e preparada em laboratório para ser injetada no receptor, que havia acabado de passar por uma quimioterapia extremamente potente que havia eliminado praticamente todas as células de sua medula óssea. Isso incluía as células neoplásicas do seu linfoma de Hodgkin, e também os linfócitos T e outras células do sistema imunológico capazes de abrigar o HIV. Vazia, a medula óssea do receptor foi colonizada com novas células, livres do vírus e incapazes de ser invadidas por ele. Isso ocorreu em 2016, e desde então o paciente passou 18 meses sem tomar seus antirretrovirais e todos os testes para detectar o HIV no seu sangue deram negativo de lá para cá.
Parece bastante simples, até ficar claro que não é. Essa foi a segunda vez que o procedimento deu certo em um paciente HIV que, além de curado do linfoma, também ficou livre da AIDS. O primeiro caso foi em Berlim, há mais de 10 anos, envolvendo um paciente dos EUA que tinha HIV e leucemia mieloide aguda. Várias outras tentativas foram realizadas de lá para cá em transplantados de medula óssea, sem sucesso. Em 2013, uma criança de 2 anos nos EUA recebeu antirretrovirais por 18 meses após o nascimento e, sem passar por transplante de medula óssea, chegou a ficar 27 meses sem vírus circulando no sangue, até que - para frustração geral - ele voltou a aparecer.
Além disso, existe o risco inerente ao procedimento. E isso não é pouco. O paciente receptor tem sua medula óssea pulverizada por quimioterapia e, durante dias ou semanas, não tem virtualmente nenhuma célula de defesa circulando no sangue, pelo menos até que as células do doador comecem a colonizar a medula óssea e a se multiplicar. Nesse período, qualquer infecção bacteriana, fúngica ou mesmo viral pode ser fatal. Mesmo em pacientes com leucemias ou linfomas agressivos e que não possuem HIV esse é um procedimento extremamente arriscado, que não pode ser feito sem que uma série de precauções sejam tomadas de antemão - incluindo, obviamente, que qualquer foco infeccioso prévio seja controlado com antibióticos. Ainda assim, a mortalidade é bastante elevada. Ou seja, não é algo simples e que qualquer pessoa pode fazer. Exige leitos de hospital com isolamento e serviços adequados, incluindo um filtro poderoso que impeça partículas de mofo de circular no ar respirado pelo paciente (fungos do gênero Aspergillus, que estão em todos os cantos, podem destruir os pulmões de pessoas sem defesas imunológicas adequadas). E mesmo que todas as precauções sejam tomadas, as coisas ainda podem dar muito errado. Medicina não é Matemática, onde 2+2 é sempre 4. Pessoas com HIV que estão em boa saúde, aderentes ao tratamento ainda que seja um incômodo tomar a medicação todos os dias, deveriam saber de todos esses riscos antes de se submeter a um procedimento de tal magnitude e que tem grandes chances de não dar certo (repito, funcionou apenas duas vezes dentre diversas tentativas) e boas chances de dar muito errado. Em resumo: não é algo que pode ser aplicado para todos os cerca de 37 milhões de indivíduos vivendo com HIV no mundo. 
Ou seja, essa não será a cura da AIDS. Não para a grande maioria das pessoas que não têm, além do vírus, uma neoplasia sanguínea que exija um transplante de medula óssea.
Ainda assim, essa é uma boa notícia. Ao estudar por que esse segundo caso de sucesso e o primeiro deram certo, em contraste com os que deram errado, podemos elucidar melhor quais os fatores que podem impedir que o HIV se multiplique nas células hospedeiras, ou quem sabe desenvolver métodos para que as células infectadas sejam reconhecidas e mortas, eliminando o vírus com elas. Com o avanço de técnicas de biologia molecular como edição genética por sequências palindrômicas (CRISPR), em um futuro não muito distante será possível editar genes, retirando sequências indesejadas (digamos, o gene CCR5 selvagem) e substituindo-as por sequências vantajosas (por exemplo, o CCR5 mutante, imune ao HIV). Essa seria uma forma muito mais segura de alterar o código genético, sem varrer as células de defesa do organismo e deixar o indivíduo vulnerável a infecções. Parece ficção científica, e de certa forma é, mas em alguns anos pode ser que não seja mais.
Segue abaixo um vídeo de um canal que eu adoro chamado Kurzgesagt, elucidando o que é a edição genética CRISPR (em inglês, mas é possível ativar legendas).


Como muitos infectologistas, eu comemoro a notícia do "paciente de Londres" com reservas. É uma boa notícia, mas ainda não é a cura. E existe o temor de que alguns indivíduos com HIV alimentem esperanças infundadas de cura utilizando esse método ou (pior ainda) deixem de tomar seus antirretrovirais por acreditar que já chegamos à cura. Não chegamos lá ainda, mas esse é mais um passo para entendermos a doença e como será possível curá-la no futuro.

Influenza: a epidemia de 1918

A gripe é uma experiência universal. Dor de cabeça, febre, tosse, dor de garganta, dor no corpo, congestão nasal, prostração... Todo mundo já passou por isso alguma vez na vida, e sabe que é mais forte do que um resfriado comum. Ainda assim, nós costumamos considerar a gripe uma doença benigna e sazonal, incapaz de gerar maiores problemas ou, mais ainda, de causar a morte de alguém. No entanto, todos os anos pessoas idosas ou com a saúde debilitada são internadas e morrem devido à gripe, e não é por acaso que existe um programa anual de vacinação para evitar que os danos sejam ainda maiores. E ocasionalmente, a depender da variedade de vírus que está circulando, mesmo pessoas jovens e perfeitamente saudáveis podem estar sob risco. 
Foi o que aconteceu há exatamente um século, quando uma pandemia de gripe varreu o mundo e causou mais mortes do que qualquer outra doença epidêmica na História. Na verdade, há quem diga que morreram muito mais pessoas de gripe do que de consequências diretas das duas guerras mundiais. As estatísticas variam entre 50 e 100 milhões de pessoas, algo em torno de 3 a 5% da população mundial na época. Isso é MUITA GENTE. Ela passou para a História com o nome de Gripe Espanhola, mas não se engane: povoados do Alasca e das ilhas do Pacífico foram dizimados, nenhum continente foi poupado e a expectativa de vida nos EUA caiu mais de 10 anos naquele ano de 1918, comparada com o ano anterior. Foi uma catástrofe mundial, e ainda hoje há quem perca o sono temendo que ela se repita nos dias de hoje, com muito mais vítimas. Para entender como ela fez tanto estrago, precisamos entender melhor como é o vírus da gripe e também voltar um pouco no tempo.
O vírus causador da gripe, ou vírus influenza, é um pequeno vírus da família dos ortomixovírus contendo apenas oito genes, codificados em RNA. Esse é um detalhe muito importante, porque o RNA é muito mais vulnerável a mutações do que o DNA que compõe o nosso material genético. Toda vez que ele invade uma célula (no nosso caso, células do aparelho respiratório) e a induz a produzir milhares de cópias de si mesmo, algumas dessas cópias saem diferentes do vírus original. Muitas são tão defeituosas que são incapazes de infectar outras células, mas outras podem ter alguma vantagem e ser mais virulentas e mais fáceis de ser transmitidas. A essa capacidade de acumular mutações seguidamente e se transformar em um vírus um pouco diferente nós chamamos de drift, e é algo que é comum a outros vírus de RNA, como o HIV. No entanto, o vírus influenza possui ainda uma outra maneira de se transformar: se ele estiver infectando uma célula que já está infectada com outro vírus diferente, seja outro vírus influenza ou outro completamente diferente, durante a construção de novas cópias virais as partes dos dois tipos de vírus podem se misturar e dar origem a um vírus "híbrido", com proteínas dos dois vírus que estavam originalmente na célula infectada. Esse processo é chamado de shift, e pode ser responsável por gerar vírus muito diferentes em um período muito curto, sem as dezenas ou centenas de mutações que o drift costuma exigir.
Tamanha capacidade de mutação também significa que existem diversos subtipos de vírus influenza. Os principais que afetam humanos são o A (também encontrados em outros mamíferos e em aves) e o B (restrito a humanos e alguns mamíferos marinhos). Dentro de cada subtipo, os vírus influenza são diferenciados entre si pelas variedades das suas duas proteínas de superfície principais. São elas a hemaglutinina, responsável pela adesão e entrada do vírus na célula hospedeira (seu nome vem justamente da capacidade de se aderir e aglutinar glóbulos vermelhos no tubo de ensaio), e a neuraminidase, responsável pela liberação da cópia viral a partir da membrana plasmática da célula infectada. Por isso classificamos os vírus circulantes como H1N1, H2N2, H3N2, H7N9, etc, de acordo com as proteínas de superfície presentes naquela cepa viral específica. Não existe uma correlação exata entre as variedades de proteína de superfície ou as combinações com maior patogenicidade, mas o fato de elas serem diferentes umas das outras pode fazer com que nosso sistema imunológico seja pego desprevenido. Diferentes tipos de vírus com diferentes combinações de proteínas circulam de forma predominante todos os anos, e de forma um tanto cíclica e um tanto aleatória uma dessas cepas pode causar uma doença mais grave ou mesmo uma epidemia em um ano específico. Essa sucessão errática de anos com e sem gripe fez com que os antigos suspeitassem que algum fator externo influenciasse a existência ou não de uma epidemia - o clima, ou talvez alguma conjunção dos astros. Essa suspeita de que a doença existisse sob uma influência externa maior deu origem ao seu nome em italiano e depois adotado em outros idiomas, como o inglês: influenza. Em inglês coloquial, o termo ainda foi reduzido até conter apenas uma sílaba, flu, como os norte-americanos e os britânicos se referem à doença até hoje.
Descobrir que a gripe era causada por um vírus foi a conclusão de um caminho longo e tortuoso. Seguindo-se à Era de Ouro da Microbiologia do último quarto do século XIX, em que Koch, Pasteur e muitos outros começaram a identificar micro-organismos causadores de doenças como cólera, tuberculose e antraz, na virada do século XIX para o XX um microbiologista alemão chamado Friedreich Johann Pfeiffer havia isolado uma bactéria do trato respiratório de pessoas com sintomas gripais e afirmava com bastante confiança que aquela era a causa da gripe. Não era a influência dos astros ou do clima, e sim um bacilo Gram-negativo curto que crescia muito bem em placas de sangue lisado que era o causador da doença! Pfeiffer batizou assim sua bactéria como Bacillus influenzae, certo de que seu nome era bastante apropriado. Mas muitos outros microbiologistas permaneciam céticos: a bactéria de Pfeiffer podia ser encontrada também em pessoas saudáveis, e inoculá-la nas vias aéreas de animais ou de pessoas saudáveis não causava gripe. Mais alguns anos se passaram até que outros cientistas identificassem que a gripe era causada por um "micro-organismo filtrável", menor que uma bactéria a ponto de ser invisível ao microscópio óptico e capaz de passar pelos poros dos filtros que retinham bactérias. Era provavelmente um vírus, assim como o da febre amarela que havia sido descoberto alguns anos antes. Não era visível, mas estava lá. Só na década de 1930, com a invenção do microscópio eletrônico, foi possível observar o vírus causador da gripe, apropriadamente chamado de vírus influenza. Quanto ao bacilo de Pfeiffer, ele foi depois rebatizado como Haemophilus influenzae, e se descobriu que é uma bactéria comum nas vias aéreas das pessoas, mesmo das saudáveis, ainda que algumas cepas possam causar pneumonias, infecções de ouvido ou mesmo meningites. Uma vacina contra ele foi desenvolvida décadas depois e hoje é administrada a crianças pequenas para evitar essas formas invasivas de infecção, fazendo parte do calendário vacinal brasileiro atual.
Agora sabendo o que é o vírus causador da gripe, resta saber de onde ele vem. A maior parte dos vírus influenza A circula no trato digestivo das aves sem causar grandes problemas, ainda que ocasionalmente mutações gerem uma variedade que é patogênica também para elas. É uma zoonose. Isso quer dizer que é redundante falar em gripe aviária: toda gripe é aviária, no início. Algumas vezes o vírus pode sofrer uma mutação que gera afinidade não só pelas células do intestino das aves, mas também pelas células das vias aéreas dos mamíferos, inclusive as nossas. Ocasionalmente, o vírus influenza pode ser transmitido das aves para animais como os porcos, causando neles sintomas similares aos da gripe e fazendo-os de amplificadores virais antes do salto final para os humanos - e claro, com mutações ocorrendo o tempo todo nas aves, nos suínos e nos humanos. Mas nem sempre o porco é necessário: há relatos de vírus influenza humanos que eram idênticos aos de aves, sem a etapa suína.
Aves, porcos e pessoas. Onde no planeta podemos encontrar essa combinação com mais facilidade? No sul da China, claro. Plantações de arroz atraindo patos e outras aves, criações de porcos ao lado do arroz e das aves, e uma das regiões mais densamente povoadas por humanos em todo o planeta. Não deveria ser surpresa o fato de que praticamente todas as grandes epidemias de gripe tiveram origem exatamente ali: na província de Guangdong, no sul da China, e em Hong Kong, que fica do lado. Provavelmente surtos e pequenas epidemias de gripe têm acontecido na região há muitos séculos ou mesmo milênios, mas os avanços tecnológicos da modernidade encurtaram distâncias e fizeram com que epidemias que antes estariam restritas passassem a se espalhar pelo planeta. Além disso, depois das Guerras do Ópio a cidade de Hong Kong passou a ser domínio britânico, voltando a fazer parte da China apenas em 1997, 150 anos depois. Nesse período, apesar do intercâmbio comercial e de pessoas com a China, Hong Kong estava ainda mais interligada com o restante do então gigantesco império britânico, "onde o sol nunca se põe", como se dizia na época da Rainha Vitória. Do Canadá até a Austrália, da Índia até a África do Sul e a Guiana, uma intensa rede comercial ligava todas essas colônias entre si e à Inglaterra. E Hong Kong passara a ser parte disso em 1847. É possível que a epidemia de 1918 tenha surgido em Hong Kong? Não se sabe ao certo, mas muitas das que vieram em seguida (sem as mesmas proporções cataclísmicas) vieram de lá.
Navios a vapor e a combustão cruzando os mares a uma velocidade muito maior do que seus antecessores a vela, e levando muito mais gente, eram um produto das inovações da Revolução Industrial. A imigração maciça de europeus para os EUA, o Brasil, a Argentina, o Chile e a Austrália só foi possível graças a essas grandes embarcações. No entanto, mais do que ocasionalmente esses navios levavam também pessoas doentes, e uma das atividades mais importantes dos portos desses países era vigiar epidemias entre os recém-chegados e deixá-los de quarentena. Nem sempre funcionava. Mas na época da pandemia de gripe de 1918, havia um ingrediente a mais facilitando a disseminação da doença. Um ingrediente que estava chacoalhando o planeta, matando o século XIX e dando origem ao século XX como conheceríamos a partir de então: a Primeira Guerra Mundial.
A guerra começara em julho de 1914, como consequência direta da rivalidade entre países europeus e sua disputa por colônias. De um lado, franceses, ingleses, russos e, no fim, norte-americanos. De outro, alemães, austríacos e otomanos. No início, ambos os lados estavam tão confiantes que diziam que a guerra acabaria antes do Natal de 1914, e que não haveria nenhuma outra a partir de então - ela era chamada de A Guerra para Acabar com Todas as Guerras. O avanço lento, as metralhadoras e o número obsceno de baixas de ambos os lados fizeram com que os combates se estendessem pelos quatro anos seguintes, com estratégias defensivas baseadas em trincheiras úmidas, lamacentas, sujas e pouco ventiladas. Recrutas se aglomerando em campos de treinamento e nas trincheiras com pouca higiene e, a partir da entrada dos EUA na guerra em 1917, soldados apinhados em navios para cruzar o Atlântico e lutar na França. Não era hora de pensar em quarentena, ou de evitar aglomerações. Era hora de mobilizar tropas e desembarcá-las no local dos combates o mais rápido possível. O cenário perfeito para uma epidemia de gripe se espalhar.
Ninguém sabe ao certo de onde a epidemia veio. Há quem diga que começou no Kansas, no interior dos EUA, enquanto outros dizem que uma doença respiratória muito parecida já circulava na Europa desde 1916, mas a guerra impediu que alguém prestasse atenção nela. No entanto, é possível que a China também seja a origem da epidemia. Em 1917, milhares de trabalhadores chineses atravessaram o Canadá de trem para embarcar rumo à França e ajudar a cavar trincheiras - tudo em segredo, porque a China era oficialmente neutra (na verdade retalhada pelas grandes potências) e ninguém queria que a guerra também se estendesse até a China. Nessa época, há relatos de uma epidemia de gripe ocorrendo em algumas regiões da China. Algum trabalhador chinês doente poderia ter transmitido a gripe a alguém no Canadá ou na França e ter dado origem à epidemia após o vírus passar por sucessivas  mutações, embora um estudo chinês conteste essa hipótese. E claro, como em toda epidemia há fake news: houve quem dissesse que a doença chegara aos EUA através de submarinos alemães que contaminaram deliberadamente os portos, e também quem afirmasse que o vírus na verdade estava escondido em comprimidos de aspirina, que era produzida pela Bayer, dos inimigos alemães.
Seja como for, tendo se iniciado na China, na Europa ou nos EUA, a epidemia alcançou proporções mundiais em março e abril de 1918. Sua capacidade de contágio parecia ser acima da média até para a gripe, e pessoas que tossiam ou espirravam liberavam no ar uma nuvem de centenas de milhares de partículas virais. Muitas pessoas já transmitiam o vírus antes de se sentir doentes, e com a facilidade de transporte por automóvel, trem ou navio, só começavam a se sentir mal quando estavam em outras cidades, a centenas de quilômetros de onde se contagiaram ou contagiaram outras pessoas. Campos de recrutas no interior dos EUA foram acometidos, adiando o embarque deles para a França. Um deles, Fort Riley, teve 522 casos em poucas semanas. No continente europeu, uma ofensiva alemã precisou ser adiada porque muitos soldados estavam doentes e incapazes de lutar. Do lado francês e britânico a situação era parecida. Também a população civil sofria com a dor de cabeça, a prostração, a febre, a tosse e o mal-estar. Os jornais dos países combatentes faziam de tudo para censurar as notícias da gripe e manter o moral das tropas elevado. Ninguém queria que o outro lado achasse que eles estavam debilitados e vulneráveis. A Espanha, neutra, não tinha essa censura nos seus jornais, e as notícias da gripe circulavam mais abertamente, principalmente depois que o próprio rei espanhol foi acometido pela doença. Por essa razão, a epidemia ficou conhecida na época e depois como Gripe Espanhola. Mas apesar da facilidade em se disseminar e dos sintomas debilitantes que deixavam as pessoas de cama, a mortalidade foi muito baixa, similar à da gripe sazonal. Quando ela passou, alguns meses depois, as pessoas acharam que ela já tivesse acabado. Não tinha.

 Cots set up in gymnasium for flu patients
Soldados enfermos em Fort Riley, Kansas, EUA. Fonte: CDC

Não se sabe ao certo o que aconteceu. Pode ter sido um drift após meses sendo transmitido de pessoa para pessoa na Europa e nos EUA. Pode ter sido um shift com outro vírus. Pode ter sido a vulnerabilidade das pessoas por causa da guerra e do estresse associado. Há teorias afirmando até que o gás mostarda, arma química utilizada na guerra e com potencial de causar mutações, pode ter contribuído. O fato é que, a partir de setembro de 1918, o vírus que antes deixava as pessoas de cama começou a matá-las. Se antes ela matava cerca de 0,1% das pessoas acometidas, essa variedade mutante mais agressiva matava 2,5%, chegando a 10 ou 20% de mortalidade em alguns lugares. Considerando que uma em cada quatro ou uma em cada três pessoas da Terra contraiu gripe em algum momento nessa época, o número final é realmente assustador. Mais pessoas morreram nessa epidemia do que de AIDS desde 1981 e, em números absolutos, mais pessoas morreram em um ano do que todas as vítimas da peste bubônica em cem anos na baixa Idade Média. O mais assustador disso tudo? Grande parte das vítimas eram pessoas jovens, perfeitamente saudáveis. Normalmente a gripe mata extremos de idade, como crianças muito pequenos e idosos com doenças crônicas. Esse vírus matava também pessoas de 20, 30 ou 40 anos que não tinham absolutamente nenhum problema de saúde. E matavam rápido. Dois ou três dias eram suficientes, às vezes menos. Há relatos de dez ou doze horas entre o início dos sintomas e o óbito. A febre, a dor de cabeça e o mal-estar começavam por derrubar a pessoa, que em pouco tempo tinha falta de ar e adquiria uma cor azulada na face e na extremidade por causa da falta de oxigênio, o que nos médicos chamamos de cianose. Em tempos onde não havia respiradores, cilindros de oxigênio ou tubos orotraqueais, não havia muito a ser feito. Enfermeiros e médicos se desdobravam para proporcionar um mínimo de conforto, mas as enfermarias ficavam lotadas e existia o medo de que eles próprios contraíssem a doença, o que aconteceu algumas vezes. Pacientes cianóticos e com falta de ar, mas ainda vivos, eram etiquetados pelos enfermeiros para agilizar a remoção para o necrotério e dar lugar mais rapidamente a outros doentes que chegavam. Encontros públicos eram proibidos, pessoas sem máscara de gaze eram impedidas de circular nos bondes, e as pessoas faziam de tudo para se manter em suas casas, a salvo do vírus. 

Red Cross Volunteers- Boston, MA
Voluntários da Cruz Vermelha recrutados às pressas para combater a gripe, porque grande parte das enfermeiras e dos médicos estavam auxiliando as tropas na Europa. Fonte: CDC

Curiosamente, pessoas que haviam sido acometidas pela primeira onda da gripe na primavera de 1918 estavam de alguma forma imunes à segunda onda, muito mais mortal. As outras, por alguma razão provavelmente relacionada ao tipo do vírus, desenvolviam uma resposta inflamatória exacerbada que enchia os pulmões com os seus próprios fluidos, matando-os de hipóxia. Autópsias realizadas na época descrevem pulmões pesados e encharcados, cheios de líquido. Uma teoria bastante plausível diz que os indivíduos jovens e saudáveis eram justamente aqueles que montavam uma resposta imune mais forte contra o vírus, daí os sintomas mais exacerbados e a maior mortalidade. Dentre os adultos jovens, mulheres grávidas também tiveram mortalidade especialmente elevada, um padrão similar ao de outras epidemias de gripe posteriores (por esse motivo, gestantes podem e devem se vacinar contra a gripe, estando entre os grupos prioritários nas campanhas anuais de vacinação).
Estimativas da época falavam em 21 milhões de mortes, mas elas parecem ter subestimado muito o número de vítimas, principalmente fora da Europa e dos EUA. Apenas no Raj Britânico (que viria a se tornar a Índia, o Paquistão e Bangladesh), fala-se hoje em mais de 20 milhões de mortos. Na França, 400 mil vítimas fatais, e na Inglaterra 250 mil. Na Indonésia, então possessão holandesa, 1,5 milhão de mortos, cerca de 5% da população da época. No Irã houve 1 a 2 milhões de mortos, e na Etiópia o futuro imperador Haile Selassie quase morreu, junto com centenas de milhares de outros etíopes. Mahatma Gandhi, na época vivendo como advogado na África do Sul, também ficou gravemente enfermo mas sobreviveu, ao contrário de quase meio milhão de sul-africanos. Esse também foi aproximadamente o mesmo número de vítimas fatais nos EUA, porém a epidemia foi especialmente devastadora para os povos nativos, notadamente no Alasca. Em alguns povoados, 90% da população morreu. Há relatos dramáticos de crianças órfãs resgatadas depois que seus pais haviam morrido, e em outros povoados foram encontrados cães famintos se alimentado dos cadáveres de seus antigos donos, vitimados pela gripe. No Brasil, mais de 300 mil pessoas morreram, incluindo o presidente eleito Rodrigues Alves, que assumiria seu segundo mandato, e grande parte da tripulação de alguns navios da Marinha (chegando a 90% em alguns casos). O único país que ficou livre da epidemia foi a ilha de Samoa Americana, que permaneceu isolada do resto do mundo durante todo o período temendo as consequências da epidemia depois que mais de 20% da população da vizinha Samoa Ocidental foi morta. No total, calcula-se em algo entre 50 e 100 milhões de vítimas, principalmente no outono de 1918.
Análises posteriores identificaram três ondas diferentes da epidemia. A primeira, da primavera, em março e abril, que se disseminou e causou sintomas mas matou pouco. A segunda, a partir de setembro, que foi responsável pela grande maioria das mortes, e por fim uma terceira onda, menos agressiva e letal, entre fevereiro e março de 1919, após o final da guerra (que havia ocorrido em novembro de 1918 deixando a Europa em frangalhos). E há quem afirme que muitos casos de encefalite letárgica na primeira metade da década de 1920 foram na verdade causados pelo vírus influenza epidêmico, mas essa é uma teoria bastante controversa.

As três ondas, identificadas em um gráfico de mortalidade das cidades de Londres, Nova York, Paris e Berlim na época. Fonte: PLOS


Como toda grande epidemia, a de 1918 chegou ao fim quando não havia mais pessoas suscetíveis suficientes para que a doença perpetuasse seu ciclo, fosse porque os suscetíveis haviam morrido ou se recuperado e criado anticorpos. Estranhamente, por muitos anos a epidemia de gripe de 1918 foi encarada como tabu. Ninguém falava sobre ela, ninguém escrevia. Talvez porque fosse uma história horrenda demais, juntamente com a guerra, para merecer ser revivida. Mas todas as histórias, por piores que sejam, merecem ser contadas se não para servir como um alerta. Aconteceu em 1918, e pode acontecer de novo hoje. Por um lado, temos tecnologia para manter vigilância sobre surtos locais e avisar antes que se tornem pandemias. Por outro, a mesma tecnologia que nos ajuda pode facilitar a disseminação mais rápida de um vírus potencialmente letal por meio de aviões, por exemplo.
E temos as vacinas. Ao longo da segunda metade do século XX, nossa capacidade de entender o vírus da gripe e de nos preparar para uma epidemia melhorou muito, apesar de alguns fracassos como a  enorme campanha de vacinação nos EUA em 1976 que acabou se provando consequência de um alarme falso. A verdade é que o vírus influenza, por sua grande capacidade de mutação, tem diversas cepas e subtipos diferentes circulando ao mesmo tempo. A OMS e organizações de saúde locais têm todo ano a tarefa de tentar identificar quais cepas virais mais agressivas deverão circular no ano seguinte, e se preparar produzindo uma vacina contra elas. Na grande maioria das vezes elas acertam, mas ocasionalmente esse trabalho de previsão apresenta falhas. Às vezes as vacinas nos protegem contra as cepas mais perigosas, e as que restam em circulação são mais brandas. Ou seja, por mais que algumas pessoas reclamem que ficaram gripadas mesmo tomando a vacina contra gripe indicada nos meses ou semanas anteriores, provavelmente o vírus que está agindo no momento não é tão perigoso quanto aquele contra o qual foi elaborada a vacina. Além disso, o influenza não é o único vírus capaz de acometer as vias aéreas e causar tosse, coriza, espirros e mal-estar - existem mais de uma centena de vírus que podem causar tais sintomas, incluindo rinovírus, adenovírus, vírus sincicial respiratório, parainfluenza e etc. A maior parte não causa febre, prostração ou dor intensa no corpo, mas essa é uma resposta inespecífica do organismo contra uma enorme quantidade de agentes infecciosos que nem sempre conseguimos identificar. A depender da resposta de cada indivíduo, esses vírus "inocentes" podem sim derrubar uma pessoa. Outros vírus também podem nos causar um mal-estar similar ao da gripe, com mal-estar, como citomegalovírus, vírus Epstein-Barr e até mesmo o HIV em sua fase aguda, e infelizmente nenhum deles pode ser prevenido com a vacina contra a gripe. 
E como o vírus influenza sofre mutações todos os anos, uma nova vacina precisa ser elaborada e administrada todos os anos, em especial àquelas pessoas que estão em grupos de risco: idosos, gestantes, portadores de doenças crônicas (incluindo HIV/AIDS), profissionais de saúde, pessoas vivendo ou trabalhando em ambientes superlotados (orfanatos, presídios, quartéis) e populações indígenas, que entraram em contato com o vírus há muito menos tempo que as pessoas de origem europeia e têm por isso uma desvantagem genética em sua resposta contra ele (vide a alta mortalidade nas ilhas do Pacífico e no Alasca em 1918).
Além disso, foram desenvolvidos medicamentos antivirais específicos para o vírus influenza (e que tendem a se esgotar das prateleiras das farmácias quando uma nova epidemia começa a se espalhar). No entanto, o Oseltamivir (Tamiflu) e o Zanamivir (Relenza, geralmente não encontrado no Brasil) só têm efeito se iniciados até as primeiras 48 horas a partir do início dos sintomas, e não são livres de efeitos colaterais (no meu primeiro mês de residência médica no Emílio Ribas, em março de 2016, apresentei sintomas gripais enquanto estagiava no serviço de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas da USP; acreditando estar com a cepa agressiva da época e para não me tornar uma bomba assassina de pacientes, pedi afastamento e comecei a tomar Tamiflu, mas tive que interromper o tratamento devido à gastrite, às náuseas e à diarreia que os comprimidos me proporcionaram).
O ano de 2016 foi um tanto atípico porque a gripe chegou ao Brasil mais cedo. Geralmente tendo início no final de abril, em maio ou em junho, coincidindo com o fim do outono e começo do inverno, nesse ano os casos começaram ainda em março, obrigando o Ministério da Saúde a se apressar e a iniciar a campanha de vacinação mais cedo - com toda a histeria e as filas enormes que uma campanha de vacinação ocorrida durante uma epidemia costumam causar. Em anos normais, as pessoas começam a ser vacinadas semanas antes da epidemia ter início, tempo mais do que suficiente para que elas todas se imunizem.
Ou seja, apesar de existir uma medicação eficiente se tomada no período correto, a maneira mais eficaz de se proteger da gripe, em especial para os grupos de risco, é a vacinação. E outras recomendações são bastante válidas, e não só em períodos epidêmicos: higienizar as mãos sempre que possível, proteger o nariz e a boca ao espirrar e evitar aglomerações se estiver com sintomas gripais. Essas recomendações não precisavam estar em cartazes ou em outros veículos de comunicação pública, porque são medidas básicas! Infelizmente as pessoas só costumam se lembrar delas quando há o medo de se contagiar com algum vírus como o influenza. Na verdade, durante epidemias de gripe a quantidade de casos de diarreia aguda caem bastante, simplesmente porque as pessoas começam a lavar as mãos com maior frequência.
E para os serviços de saúde e Epidemiologia ao redor do mundo (em especial no sudeste e leste da Ásia), a melhor maneira de evitar uma nova epidemia é a vigilância constante de novos casos. Uma vez identificado um surto, é essencial a identificação do subtipo de vírus influenza que o causou e a produção rápida e eficiente de vacinas no mundo todo capazes de proteger as pessoas dessa nova ameaça antes que ela alcance níveis globais como ocorreu em 1918.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Recomendação: Extra Credits

Não, este não é um dos meus textos originais. Eles voltarão a partir do momento que a minha monografia estiver pronta e tiver sido apresentada, prometo. Hoje quero indicar e recomendar vídeos! 

O Extra Credits é um canal sensacional no Youtube, com excelentes animações sobre História, Mitologia, ficção científica e produção de games. Não é preciso dizer que é um dos meus canais preferidos, e toda semana eles lançam vídeos novos de cada uma das séries de animações que eles fazem. São vídeos curtos, com alguns poucos minutos de duração, mas com muito conteúdo e bastante humor.
Eles já haviam feito uma série sobre a pandemia de gripe espanhola (o primeiro dos seis episódios  vocês podem conferir aqui) e outra sobre o pioneiro da Epidemiologia e Rei do Norte, John Snow (cujo primeiro episódio está aqui). E recentemente começaram uma série nova, que me deixou extremamente empolgado, sobre a História da tuberculose! São dois episódios (não sei se haverá mais), que estão excelentes. Infelizmente os vídeos estão todos em inglês, e a grande maioria não tem legendas, o que dificulta bastante para quem não está familiarizado com o idioma. Mas se você compreende inglês razoavelmente e se interessa por esses temas, recomendo de verdade que dê uma vasculhada pela playlist do canal. Certamente vai encontrar coisas interessantes!

Aí vai o primeiro vídeo da série da tuberculose:

E o segundo vídeo:



VACINAS CONTRA COVID-19 VERSUS HIV: A "POLÊMICA" DESNECESSÁRIA DE HOJE

Um estudo de 2008 identificou que células infectadas in vitro por um adenovírus humano (Ad5) expressavam mais receptores CCR5, as portas de ...