sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Futuro do Pretérito

Há quem diga que o passado é outro planeta, povoado por pessoas com outro modo de pensar, outros medos e outras esperanças. E nada pode representar melhor esses medos, essas esperanças e como essas pessoas se enxergavam do que a forma como elas imaginavam o futuro. 
Nos últimos séculos, sempre houve aqueles que arriscaram prever como seria o mundo daqui a dez, vinte, cinquenta, cem ou mil anos (antes da Revolução Industrial, pessoas imaginando o futuro da forma como vemos hoje era muito mais raro, simplesmente porque a vida no ano 100 d.C, 1000 d.C, 1300 d.C e mesmo 1600 d.C era muito parecida, pelo menos para a grande maioria das pessoas; foi só quando a tecnologia começou a ser incorporada de forma mais intensa, após a Revolução Industrial, que o ambiente começou a mudar de forma rápida e as pessoas passaram a viver em um mundo que era diferente daquele de seus pais e avós, e começaram a imaginar que seus filhos e netos viveriam em um mundo ainda mais estranho). 
Com raríssimas exceções, as pessoas que fizeram essas previsões erraram feio. Ninguém que tentasse imaginar cinquenta anos atrás como seria o mundo em 2018 conseguiria prever com exatidão que teríamos algo parecido com a internet, que o medo da guerra nuclear daria lugar à preocupação com as mudanças climáticas, ou que teríamos telefones sem fio que também são câmeras, calculadoras, computadores de bolso e dotadas de um universo de aplicativos diferentes (dificilmente alguém cinquenta anos atrás saberia dizer o que é um aplicativo). E não erraram por culpa deles. Nós humanos, em toda época, temos uma forte tendência a enxergar o mundo segundo nossos valores, e a projetar no futuro aquilo que vemos no presente. Hoje, no ano 2018, imaginamos o mundo daqui a cinquenta ou cem anos repleto de robôs ou ciborgues, clones e supercomputadores - em suma, tudo aquilo que existe de moderno no presente ou pode existir em um futuro próximo e, aos nossos olhos, parece que continuará a existir em algumas décadas. Mas no meio do caminho pode ser que surja alguma tecnologia totalmente nova, que nós somos incapazes de conceber, mas capaz de revolucionar a vida das pessoas na próxima geração da mesma forma que a internet revolucionou as nossas vidas, por exemplo.
Por esse motivo, toda vez que alguém de determinada época imagina o futuro, está projetando nele o seu próprio presente, conscientemente ou não. E por isso, olhar para trás e descobrir como as pessoas do passado enxergavam o futuro é uma jornada simplesmente fascinante.

Esta ilustração se chama "Indo à Ópera no ano 2000", e foi feita por um francês chamado Albert Robida em algum momento entre os anos 1880 e 1890 (foi publicada em 1892). Na imaginação daquelas pessoas, hoje estaríamos passeando em carros voadores, parando em restaurantes com estacionamentos verticais sobre arranha-céus e indo à ópera com roupas estranhamente similares às das pessoas mais refinadas do fim do século XIX. Hoje praticamente não temos ópera, e tampouco temos carros voadores, mas é admirável pensar que houve uma época em que se acreditava que teríamos as duas coisas juntas.
Fonte: http://paleofuture.com/blog/2007/6/18/going-to-the-opera-in-the-year-2000-1882.html (o link redireciona para um blog fantástico sobre retrofuturismo, e tem inclusive detalhes ampliados dessa imagem aí em cima.

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Júlio Verne, um dos pais da ficção científica, vislumbrou a Humanidade viajando para a Lua em seu romance Da Terra à Lua, de 1885. Surpreendentemente, imaginou que a viagem seria feita por norte-americanos a partir da Flórida, o que realmente aconteceu! Em 1902, George Méliès se inspirou em Júlio Verne e lançou o filme Viagem à Lua, que se tornou um sucesso e eternizou a imagem acima.

A seguir, vemos uma série de cartões feitos por uma marca de chocolate alemã pouco tempo depois, em 1900, mostrando o ano 2000.
Porque, no alvorecer do século XXI, as casas seriam transportadas por trens.

Pessoas teriam suas próprias máquinas de voar e seus próprios dirigíveis.

O tempo seria controlado com uso de máquinas, garantindo que o fim-de-semana seria ensolarado.

As cidades seriam cobertas por painéis e protegidas do vento e da chuva.

O raio-X, que havia acabado de ser descrito por Röntgen, seria usado por policiais para enxergar através das paredes e revelar ações criminosas.

Também na França dessa época o ano 2000 inspirava visões futuristas, inspiradas no que havia de mais moderno até então: máquinas voadoras, automóveis, projeções de cinema, eletricidade e arranha-céus.
As imagens abaixo são de 1910:
Bombeiros apagariam incêndios no topo dos prédios usando asas e máquinas voadoras.

Pessoas andariam com patins motorizados.

Um robô-barbeiro faria o trabalho de um humano.

Um drive-thru de aviões, que depois iriam...
...para a ópera, óbvio.

E caso excedessem o limite de velocidade, a polícia chegaria rápido, literalmente voando.

Um trem (elétrico!) ligaria Paris a Pequim.

Pessoas receberiam mensagens de voz (em dispositivos bem diferentes dos celulares de hoje)...
...e também mensagens de vídeo.

Nos jantares de luxo seria servida comida sintética.

E nas escolas, livros seriam moídos em um dispositivo com uma manivela e a sua informação seria enviada direto para o cérebro das crianças (eu achei essa imagem particularmente perturbadora). 

Talvez elas sejam um pouco otimistas e até mesmo inocentes, mas é bom lembrar que foram elaboradas durante a Belle Époque, um período repleto de otimismo em que se acreditava que a Humanidade estava inexoravelmente no caminho do progresso graças à tecnologia. Em alguns anos, a Primeira Guerra Mundial solaparia essas esperanças e daria origem a uma era muito mais sombria.

Depois da Grande Guerra veio a Grande Depressão de 1929, e durante a década de 1930, mesmo no fundo do poço, as pessoas ousaram sonhar com um futuro próspero e brilhante. Essas figuras de uma marca de cigarros de 1931 mostram um aeródromo e um aparelho fantástico de televisão:
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Nos anos 1950, com o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, ânimos e temores mudaram. Nos EUA, uma explosão populacional no pós-guerra acompanhou a nova onda de crescimento econômico, e apesar do medo da guerra nuclear, o futuro parecia maravilhoso.
1950s Painting Of The Future
Nessa imagem, uma família pesca no mar durante o fim-de-semana, enquanto jatos pousam na água e discos voadores levantam voo.

House Of Tomorrow Painting
Projetos de casas futuristas dentro de domos de vidro pareciam misturar o otimismo com o futuro e o medo da bomba atômica.

Mail Delivered By Rockets And Planes 
Na década de 1950, os foguetes, além de levar o apocalipse nuclear, poderiam levar também cartas e encomendas. Por que não?

Mother And Daughter Driving A Flying Saucer
Famílias terráqueas também teriam seus próprios discos voadores!

Man Flying In A Helicopter Waves To Family
E quem não quisesse um disco voador poderia ter um helicóptero. 
Obs.: se já fazemos cagada no trânsito apenas com as dimensões para frente-para trás e direita-esquerda, imagine se adicionássemos o para cima-para baixo.

E então chegamos aos anos 1960. O Sputnik havia sido lançado pelos russos em 1957, e Yuri Gagarin havia chegado à lua em 1961. A corrida espacial havia começado, e os EUA e a URSS disputavam agora o espaço, a fronteira final. Em breve os EUA chegariam à Lua. Nesse ritmo, acreditavam as pessoas daquela época, em breve chegaríamos a outros planetas e teríamos bases na Lua, no espaço sideral e em Marte. Não por acaso, essa foi a Era de Ouro da ficção científica baseada na exploração espacial.


Nos EUA, imaginar estações espaciais e naves reabastecendo no espaço era fácil. Werner von Braun, o pai do programa espacial dos EUA, imaginou inclusive uma estação espacial em formato de anel, uma ideia que ainda figuraria em diversas obras de ficção científica dali em diante.

Do outro lado da Cortina de Ferro, a imaginação também voava solta. Assim como os norte-americanos, os russos também sonhavam com viagens interplanetárias e com bases na Lua e em outros planetas. Afinal, os russos não pretendiam parar no Sputnik, na Laika ou em Gagarin. Assim como no Ocidente, o futuro no espaço também parecia glorioso para os russos, daí o tom de otimismo que as imagens transpareciam. Pouco importava se o mundo estava à beira de uma guerra nuclear. Estávamos indo para o espaço!

Essa é a representação de uma base lunar russa, retirada de um livro para crianças.

Representações artísticas de bases russas na Lua

Diversas representações de bases e cidades em outros planetas, feitas por artistas russos.

Foi nessa época também que Arthur Clarke lançou 2001, Uma Odisseia no Espaço, que se tornou um clássico do cinema nas mãos de Stanley Kubrick. Como já podemos imaginar, a história se passa em 2001, e nela há estações espaciais, bases em luas de outros planetas e computadores ciumentos (além de monolitos).


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Não é minha intenção aqui discorrer sobre o enredo do filme. O que pretendo é mostrar como uma obra do fim dos anos 1960 enxergava a virada do século - com estações espaciais girando pelo espaço, astronautas com um traje bem mais moderno do que o que Neil Armstrong usou para caminhar na Lua e inteligência artificial capaz de emular sentimentos humanos como o ciúme. Bom, 2001 chegou e foi embora, e ainda não temos essas maravilhas todas que Arthur Clarke profetizou. Mas não podemos culpá-lo. O futuro que imaginamos é uma projeção do presente, e naquele presente a Humanidade estava saindo da Terra em direção ao espaço sideral pela primeira vez (quando Clarke escreveu o livro, Neil Armstrong ainda não havia pisado na Lua). Se tivéssemos mantido o mesmo ritmo, talvez tivéssemos sim espaçonaves viajando para as luas de Saturno com humanos em animação suspensa.


As obras das décadas seguintes mantiveram mais ou menos a mesma linha, mostrando a Humanidade dispersa por muitos sistemas planetários, em continuidade com essa linha do tempo que começara com as primeiras viagens espaciais nas décadas de 1950 e 1960.

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A espaçonave de carga Nostromo, da franquia Alien, destinada a transportar minérios entre diferentes mundos até o dia em que recebeu um passageiro indesejado

Nos anos 1980, o mundo entrou em uma época de pessimismo. A economia dos EUA e de grande parte do Ocidente estava seriamente prejudicada pelas elevações do preço do petróleo em 1973 e em 1979, e a URSS seguia em declínio. Tempos sombrios se refletiam também nas projeções do futuro.Filmes como Blade Runner, por exemplo, mostravam um planeta no século XXI dominado por corporações, com uma elite milionária vivendo em arranha-céus enquanto os mais pobres vivem no submundo. Tudo sob um clima 100% cyberpunk, com humanos e androides sempre envolvidos por névoa e escuridão. 
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Ainda que tenha sido produzido em 2017, a sequência Blade Runner 2049 fez questão de manter o mesmo clima de cyberpunk do original.
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Não podemos dizer que estamos hoje às mil maravilhas, mas por sorte não vivemos em um mundo distópico, escuro, nebuloso e repleto de neon, como os filmes daquela época retratavam o século XXI. Seria terrível ver pessoas andando por aí com mullets e roupas dos anos 1980.
É claro que parte do motivo pelo qual ambientes escuros e esfumaçados eram tão comuns era porque os efeitos especiais da época eram bastante limitados, e não teriam o mesmo efeito nos espectadores se as cenas ocorressem em ambientes iluminados e onde heróis e vilões pudessem ser vistos de forma nítida.
No século XXI, a revolução dos efeitos especiais e da computação gráfica no cinema passou a permitir a representação de qualquer coisa, sem a necessidade de ambientes escuros. Obras mais recentes, como Distrito 9, A.I. e mesmo adaptações de livros antigos como Eu, Robô, de Isaac Asimov, não têm um visual tão cyberpunk como Blade Runner, por exemplo.


Eu, Robô e A.I., aliás, juntamente com Matrix e Exterminador do Futuro, mostram também como a preocupação mais presente nos filmes de ficção científica dessas últimas décadas deixou de ser a exploração espacial e passou a se concentrar na Robótica, na inteligência artificial e em um possível conflito entre humanos e robôs/computadores/entidades sintéticas.
Pode ser que no futuro, talvez pelas mesmas questões políticas que motivaram a primeira corrida espacial, tenhamos um ressurgimento da exploração do espaço, e isso inevitavelmente estará representado nas obras da época, sejam filmes, séries ou livros. Pode ser que daqui a cinquenta anos as pessoas olhem para nossas tentativas de representar o futuro com a mesma estranheza que sentimos ao contemplar as obras dos franceses e alemães de 1910 ou dos norte-americanos e russos dos anos 1960. Mas isso não é motivo para nos envergonharmos. A forma como nós representamos o futuro diz muito menos sobre o nosso verdadeiro futuro e muito mais sobre como imaginamos que ele seja.
Uma coisa é certa: enquanto continuarmos a descobrir e inventar coisas novas, não faltará gente disposta a vislumbrar até onde essas tecnologias e invenções nos levarão.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Sífilis e o Experimento de Tuskegee

Todos aqueles que já precisaram realizar algum tipo de pesquisa na área de Saúde que envolvesse seres humanos sabe como é complexo e cheio de burocracias. Aprovação em comitê de ética, termo de consentimento assinado pelo paciente, termo de confidencialidade e outras tantas exigências, tudo foi criado com o objetivo de proteger os pacientes. Nem sempre foi assim. Houve uma época em que pesquisas clínicas eram feitas com muito menos exigências em relação à bioética, à segurança ou à privacidade dos pacientes. O que fez com que isso mudasse foi um dos episódios mais vergonhosos da História da Medicina. Um experimento tão infame que se tornou desde então o maior exemplo de como NÃO se fazer um estudo clínico. Um experimento que pretendia estudar os efeitos de uma doença em particular: a sífilis.

Sir William Osler certa vez definiu a sífilis como "a grande imitadora", pela sua capacidade de causar um número enorme de sintomas e mimetizar outras doenças, e isso provavelmente tem a ver com o tipo de lesão que ela causa no organismo. Ela é causada por um tipo muito particular de bactéria, chamada Treponema pallidum, que possui o formato de um saca-rolhas (chamamos as bactérias com essa morfologia de espiroquetas) e com um revestimento que a torna capaz de escapar de boa parte da resposta imune do hospedeiro. Além disso, até hoje ninguém conseguiu fazê-la crescer em uma placa de cultura - o que costuma ser bastante fácil para outros tipos de bactéria - e por esse motivo até o surgimento de técnicas modernas de análise de DNA pouca coisa se sabia sobre os treponemas.
Basicamente, o que a sífilis causa no organismo é uma inflamação na parede dos vasos sanguíneos e nos tecidos em volta. Como temos vasos no corpo todo, essa inflamação pode se espalhar por várias áreas, incluindo a pele e o sistema nervoso. No entanto, parece que os treponemas possuem algum tipo de aversão a altas temperaturas, por isso geralmente a sífilis não costuma acometer as vísceras abdominais.
Didaticamente, dividimos a evolução da doença em três fases. Uma vez que o indivíduo entra em contato com o treponema (a via de transmissão, na grande maioria das vezes, é sexual), os treponemas se espalham por todo o corpo, penetrando até mesmo no líquido cefalorraquidiano entre as meninges, de onde geralmente (mas nem sempre) é eliminado pouco depois. Cerca de 3 a 6 semanas após a infecção, surge uma lesão no local onde o micro-organismo foi inoculado e atravessou a pele ou mucosa - geralmente no órgão genital, mas ocasionalmente no ânus ou na boca. O cancro, como a lesão é chamada, é geralmente uma ulceração indolor, de cor avermelhada e cheia de pequenos treponemas, sendo por isso altamente infecciosa. Essa é o que chamamos de sífilis primária, a primeira fase da doença. Por ser indolor, muitas vezes o cancro passa despercebido, especialmente nas mulheres, e cicatriza poucas semanas depois.
Após um período variável que pode chegar a até mais de 2 meses depois do desaparecimento do cancro, os treponemas espalhados pelo corpo deflagram uma reação inflamatória que constitui a sífilis secundária e se caracteriza por pequenas manchas vermelhas em todo o corpo, parecidas com catapora ou sarampo, mas que têm um diferencial importante: ao contrário dessas outras doenças, na sífilis as manchas vermelhas costumam estar presentes também nas palmas das mãos e nas plantas dos pés. Esse fato ajuda na suspeita diagnóstica da sífilis e é um lembrete sobre por que nós médicos devemos examinar os pacientes com cuidado e atenção. Outras formas de lesão de pele são possíveis, inclusive queda de cabelo em alguns pontos do couro cabeludo e dos supercílios. Como há grande circulação de treponemas, nessa fase também há um nível muito alto de anticorpos contra sífilis circulando no sangue.

Sífilis secundária acometendo palmas das mãos.

Em alguns dias ou semanas as manchas desaparecem e a doença entra em um estado de latência, na qual pode permanecer silenciosa por muitos e muitos anos ou mesmo para o resto da vida. Mas em alguns casos, dez, vinte ou trinta anos depois, a reação inflamatória causada pelos treponemas pode causar outros problemas, que são conhecidos como sífilis terciária. Tumorações podem surgir em todo o corpo, verdadeiros abscessos chamados de gomas sifilíticas que podem ser desfigurantes ou, se ocorrerem dentro do cérebro, fatais. A inflamação na parede da aorta, a artéria mais calibrosa do corpo e que sai direto do coração, pode deixá-la menos resistente e dar origem a uma dilatação anômala, que chamamos de aneurisma. Sua ruptura pode ser desastrosa, mas felizmente há técnicas cirúrgicas capazes de evitar que isso aconteça se o aneurisma for detectado precocemente. E finalmente há os danos no sistema nervoso, que conhecemos como neurossífilis. Os sintomas podem se assemelhar aos de uma meningite, aos de um AVE, aos de alterações oftalmológicas ou mesmo aos de mania, esquizofrenia ou depressão. Na verdade, a neurossífilis pode mimetizar absolutamente qualquer síndrome neurológica ou psiquiátrica! Inclusive, diante de um idoso com demência, a neurossífilis é uma das causas tratáveis que devem ser excluídas (juntamente com hipotireoidismo e deficiência de vitamina B12) antes de se bater o martelo e afirmar que o paciente tem Alzheimer. À primeira vista, pode ser difícil acreditar que aquele vovô de quase 90 anos pode ter sífilis, mas como a forma terciária pode levar décadas para se manifestar, a investigação de sífilis é sim recomendada.
Existem diferentes formas de se diagnosticar sífilis. O cancro duro, a lesão da sífilis primária, é repleto de treponemas, e basta encostar uma lâmina de vidro sobre a lesão após uma limpeza local, adicionar uma gota de soro fisiológico e levar a um microscópio de campo escuro. Os treponemas são muito pequenos e finos para ser vistos sob técnicas convencionais de microscopia, mas ao microscópio de campo escuro, sob uma luz oblíqua, é possível ver muitos pequenos pontos brilhantes pulando em um fundo negro.

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Imagem de treponemas em campo escuro (não se iludam, geralmente a imagem no mundo real não é tão bonita assim)

Talvez a forma mais simples e mais conhecida de se realizar o diagnóstico laboratorial de sífilis seja através do Venereal Disease Research Laboratory test (VDRL). Ele consiste em adicionar uma gota do fluido do paciente a ser testado (usualmente plasma ou líquido cefalorraquidiano) a um extrato de coração de boi, que contém um fosfolipídio chamado difosfatidil-glicerol que também está presente na parede dos treponemas. Caso o paciente tenha anticorpos contra sífilis circulando, eles formarão um aglomerado com o difosfatidil-glicerol que pode ser visto como um precipitado ao microscópio óptico (devido a essa afinidade com o difosfatidil-glicerol do coração bovino, esses anticorpos também são chamados de anticorpos anti-cardiolipina). Uma maneira de estimar a quantidade de anticorpos circulantes é diluir a solução em soro fisiológico até que não haja precipitação mais. Por exemplo: se em 1 ml de solução de plasma e extrato de coração de boi houve precipitação, metade desse volume é diluído em soro fisiológico e analisado de novo. Caso desta vez não haja precipitação, consideramos a titulação como 1/2 (foi preciso diluir metade do volume para que a mistura deixasse de precipitar). Não raro, é necessário diluir muitas e muitas vezes a mistura para que ela deixe de precipitar, rendendo resultados como 1/16, 1/32, 1/64, 1/128... Uma titulação de 1/128 significa que havia uma concentração tão alta de anticorpos que foi preciso diluir 1/128 avos da solução original em soro fisiológico para que ela deixasse de precipitar. Por mais que às vezes seja um pouco trabalhosa e nem sempre precisa (às vezes o técnico de laboratório pode ficar na dúvida se houve precipitação ou não), a técnica do VDRL depende de poucos recursos e pode ajudar bastante a avaliar se um paciente com sífilis está respondendo bem ao tratamento, por exemplo. Principalmente porque testes baseados em anticorpos mais específicos (chamamos de testes treponêmicos, sendo o principal deles o FTA-ABS) continuam positivos para o resto da vida mesmo após o tratamento, de forma que impossível saber se um indivíduo que teve sífilis no passado e foi tratado está novamente com a doença. Com o VDRL, no entanto, embora o paciente que foi tratado corretamente e curado possa permanecer para sempre com uma titulação de 1/2, por exemplo, se seis meses depois ele aparecer com um novo exame indicando uma titulação de VDRL de 1/16, podemos seguramente afirmar que ele adquiriu sífilis novamente.

Não se adquire sífilis apenas por via sexual, embora essa seja a principal forma de transmissão. O motivo pelo qual o VDRL está entre os exames que devem ser pedidos mais de uma vez durante o pré-natal é que o treponema pode atravessar a placenta e chegar ao feto, especialmente no final da gestação. No organismo que está se formando, a sífilis pode acometer o periósteo, a camada de colágeno que reveste os ossos, e causar deformidades ósseas e alterações articulares. Pernas curvas ("tíbia em sabre"), deformidade nasal ("nariz em sela") e anomalias dentárias (dentes de Hutchinson) são descrições clássicas, além de lesões na pele que também são cheias de treponemas, quase como se fossem cancros duros congênitos. Não é raro que também nasçam com anemia, baço aumentado e icterícia (deposição do pigmento biliar resultando em pele amarelada). Se não tratada, a sífilis congênita pode deixar sequelas para toda a vida.

Um recém-nascido com sífilis congênita. Repare nas lesões de pele e no nariz em sela.

Retrato do artista Gerard de Lairesse pelo colega Rembrandt (por volta de 1665). Vítima da sífilis congênita (que posteriormente o cegou), Lairesse tinha alterações faciais típicas da síndrome - repare nos olhos distantes um do outro, na testa proeminente e no nariz em sela.

Existe muita controvérsia sobre a origem da sífilis. Há quem diga que ela sempre circulou na Europa, na Ásia e na África, e passou séculos sendo considerada como uma entidade ligada a outras doenças, como a hanseníase. No entanto, até hoje não se encontrou nenhum esqueleto na Europa que tenha alterações ósseas que permitam concluir com certeza que tal indivíduo tinha sífilis. A teoria mais aceita atualmente indica que, ou a sífilis surgiu na América e foi levada para a Europa após a primeira viagem de Cristóvão Colombo, ou ela surgiu a partir de uma cepa particularmente virulenta de alguma outra doença treponêmica da África e de lá chegou à Europa. De fato, existem algumas regiões da África onde há uma doença parecida com a sífilis chamada bejel, também causada por um subtipo de Treponema pallidum, mas sem transmissão sexual. Em algumas regiões das Américas há outra doença endêmica causada por uma variedade de Treponema pallidum, a pinta, que é transmitida por contato direto com as lesões e não por intercurso sexual. E em ambos os continentes, América e África, assim como na Ásia, há uma terceira doença chamada bouba, causada por outro subtipo de treponema. Tudo indica que, quando os europeus começaram a se aventurar pelos mares e chegar a outros continentes, chegando à África e à América, contraíram sífilis e a levaram para a Europa. Esqueletos com deformidades e reação periosteais datados de mais de 7 mil anos encontrados no continente americano e análises comparativas de DNA sugerem que a sífilis tenha realmente surgido na América. O fato de ser uma doença de transmissão sexual e ter sido levada da América para a Europa em 1492 diz bastante sobre as relações entre europeus e povos nativos.

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Uma estatueta peruana do século VI. Alguns afirmam que o nariz em sela e as deformidades dentárias da mãe sugerem tratar-se de sífilis congênita.

A primeira epidemia de sífilis registrada na Europa data de 1495, apenas três anos depois da primeira viagem de Colombo à América. Em 1489, o rei Ferdinando de Nápoles se negou a pagar as dívidas que tinha com o Papa Inocêncio VIII. Após a morte de Ferdinando, seu filho Afonso II ameaçou invadir o ducado de Milão, no norte da Itália. O príncipe de Milão, Ludovico Sforza, apelou para o Papa tentando evitar que seu ducado fosse invadido pelos napolitanos. O Papa, com o objetivo de atender ao apelo de Ludovico, "convidou" o rei da França, Charles VIII, a invadir Nápoles, já que o rei francês considerava ser herdeiro do trono napolitano por alguma árvore genealógica obscura. Essa era uma época em que a Itália estava bastante dividida, com os napolitanos no sul, os venezianos, florentinos e milaneses no norte e os territórios do Papa no meio, além de uma miríade de outras cidades-estados independentes. Como se não bastasse, potências militares ao redor ameaçavam a península constantemente - os franceses no norte, os espanhóis no sul (que também acreditavam ter direito ao trono de Nápoles, como se o reino fosse uma pizza napolitana pronta para ser dividida), e principalmente os turcos otomanos vindo do leste. Foi nessa época conturbada, ainda que mais rica em florescimento cultural com o Renascimento, que Maquiavel escreveu sua obra O Príncipe com o objetivo de aconselhar um governante (no caso algum dos Médici em Florença) a unificar a Itália e impedir que caísse nas mãos de alguma potência estrangeira.
Tentando consolidar seu poder e sua influência sobre Nápoles (e por extensão sobre a Itália), Charles VIII invadiu a Itália com 25 mil soldados, incluindo mercenários suíços, italianos e espanhóis. Inicialmente os italianos do norte aplaudiram a chegada dos franceses porque isso os livraria da ameaça do poderoso reino de Nápoles no sul, mas meses e anos de roubos, depravação e desordem fizeram com que os italianos mudassem de ideia, e o próprio príncipe Ludovico Sforza de Milão se juntou a outros príncipes italianos e acabou por expulsar os franceses. Mas os milaneses contaram com uma ajuda extra: uma epidemia de sífilis se alastrou por entre os soldados franceses, matando, debilitando e enfraquecendo muitos dos soldados que Charles VIII enviara originalmente para conquistar Nápoles. Relatos da época falam de "uma doença de transmissão sexual diferente de todas as que já se havia visto, mais terrível que a lepra, que consistia em erupções generalizadas de pústulas e que podia ser fatal". A agressividade da doença chama a atenção e é mais um ponto a favor da teoria de que a sífilis veio do outro lado do Atlântico. Os povos americanos, convivendo com a doença por milhares de anos, haviam sofrido algum tipo de seleção natural e tinham um perfil genético mais resistente à doença, levando a uma forma mais branda. Os europeus, por outro lado, não tinham essa resistência, e por isso sofreram formas muito mais graves. Eventualmente, variedades mais brandas da doença passaram a prevalecer, porque as formas que matam mais devagar são transmitidas por mais tempo. 
Ter uma infecção sexualmente transmissível não costumava ser algo muito bom para a reputação naquela época, e ninguém queria admitir que a doença havia sido trazida por eles. Colocar a culpa no inimigo ou no vizinho era muito mais conveniente. Assim, os napolitanos (e os outros italianos, bem como alemães e ingleses) chamavam a sífilis de "doença francesa". Os franceses chamavam de "doença napolitana", os portugueses, holandeses e marroquinos chamavam de "doença espanhola", os russos diziam que era a "doença polonesa" e os turcos otomanos se referiam como "a doença dos cristãos". Um médico parisiense chamado Jean Fernelius usou o termo "peste venérea" (lues venera), e até hoje "lues" é um termo usado para se referir à sífilis. O termo "sífilis", por sua vez, surgiu com o médico e poeta Girolamo Francastoro, que em 1530 escreveu a obra "Sífilo e a Doença Francesa". Sífilo, um pastor a serviço de um rei grego, teria se revoltado contra o deus Apolo. Como punição, Apolo enviou a doença para acometer Sífilo, o rei e seus súditos, deixando-os terrivelmente desfigurados.

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Ilustração de um mercenário com lesões de pele causadas pela sífilis (Albrecht Dürer, 1496).

Por muitas e muitas décadas após a primeira epidemia, a sífilis circulou na Europa, na Ásia, na África e nas sociedades coloniais nas Américas, fazendo um grande número de vítimas que incluía gente famosa como Edouard Manet, Charles Baudelaire, Gustave Flaubert, Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzche, entre outros. Há controvérsias sobre Mozart, Beethoven, Paganini e Schubert.

O mundo precisou esperar até a virada do século XIX para o XX, a era de ouro da Microbiologia, para que o responsável pela sífilis fosse identificado. Em 1905, Schaudinn e Hoffmann identificaram a então batizada como Spirocheta pallida (depois Treponema pallidum). Em 1906, Landsteiner desenvolveu a técnica de microscopia de campo escuro, e em 1910 Wassermann começou a utilizar o primeiro teste sorológico.
Por muito tempo, o tratamento da sífilis foi realizado com plantas medicinais como o guaiacum e sais de metais pesados (mercúrio, bismuto e, posteriormente, arsênico). Infelizmente, esses tratamentos eram bem pouco efetivos porque, ou não matavam os treponemas, ou matavam treponemas E TAMBÉM o indivíduo doente (o arsênico é um veneno poderoso, conhecido há muitos e muitos séculos).
Foi só quando um médico escocês chamado Alexander Fleming esqueceu uma placa de cultura de bactérias no fundo da gaveta de seu laboratório ao sair de férias em 1928 que o tratamento da sífilis se tornou realmente efetivo. Ao voltar para o trabalho, descobriu que as placas de cultura haviam mofado, e que por algum motivo havia um halo em torno da mancha de bolor onde as bactérias não cresciam. O estudo desse fungo, Penicillium notatum, deu origem à penicilina, cuja produção em massa aconteceu com a Segunda Guerra Mundial no início dos anos 1940. Por mais que desde então um número enorme de bactérias tenha desenvolvido mecanismos de resistência à penicilina e a outros antibióticos que foram descobertos ou sintetizados depois, a sífilis continua até hoje sensível à substância. De fato, a penicilina até hoje é o tratamento de escolha para a sífilis, sendo a penicilina cristalina reservada para casos de neurossífilis e o Benzetacil (uma formulação de penicilina de liberação lenta suspensa em uma solução oleosa) em dose única ou em aplicações semanais por 3 semanas usada para casos de sífilis primária, secundária e latente que não envolvam o sistema nervoso central.

Nas últimas décadas do século XIX e no início do século XX, diversas teorias sobre a doença, seu causador e seus mecanismos foram propostas, assim como várias terapias experimentais. Um professor de Dermatologia da Universidade de Oslo chamado Caesar Boeck acreditava que o mercúrio usado no tratamento da sífilis era tóxico e atrapalhava a atividade do sistema imunológico, o verdadeiro responsável pela cura. Como resultado, no período entre 1891 e 1910 ele praticamente proibiu o uso de mercúrio no tratamento da sífilis, e os cerca de 2.000 casos de sífilis em homens brancos adultos atendidos no período ficaram sem receber o tratamento baseado no metal. O sucessor de Boeck, Edvin Bruusgaard, decidiu realizar um estudo retrospectivo para avaliar o que havia acontecido com aquelas pessoas. Seus resultados foram publicados em 1928 e mostraram que havia uma chance de 30 a 40% de um indivíduo não tratado apresentar sífilis terciária, aproximadamente.
O estudo de Bruusgaard foi muito bem recebido nos EUA, e seguindo as teorias racistas da época, um grupo de pesquisadores decidiu fazer um estudo para avaliar se a sífilis evoluiria da mesma forma em homens negros, que tinham uma prevalência elevada da doença. Um estudo prospectivo, que acompanharia pacientes ao longo de um determinado período e depois, a princípio, ofereceria tratamento - ainda que o tratamento na época fosse composto pelos metais pesados e tóxicos mercúrio, arsênico e bismuto, e tivesse eficácia somente em torno de 30%. O lugar perfeito para conduzir um estudo como esse seria no Instituto Tuskegee, no condado de Macon, Alabama. Assim como em todo o restante do sul dos EUA, o Alabama era pobre e povoado por muitos descendentes de escravos.
Batizado com o nome de uma aldeia dos índios Creek que ficava na mesma área, o Instituto Tuskegee havia sido criado para estimular o desenvolvimento econômico daquela região do sul dos EUA. Dentre suas muitas instalações, possuía um pequeno hospital e um corpo assistencial que incluía médicos e enfermeiros negros, o que facilitaria a aceitação do estudo por parte dos pacientes, em sua maioria lavradores pobres e analfabetos. Aos participantes, seriam oferecidos tratamento médico gratuito, refeições e serviço funerário. Assim, em 1932 eles conseguiram uma coorte de 600 pessoas - 399 casos com sífilis e 201 controles sem a doença.
Embora talvez os idealizadores do estudo estivessem realmente motivados por algum ideal humanista, de realizar um estudo sobre as consequências da sífilis em homens negros e assim contribuir para a sociedade justificando a necessidade de tratamento da população negra, havia uma forte tendência ao paternalismo. Os pacientes eram considerados ignorantes demais para compreender a dimensão e as implicações do estudo, e por isso não seria necessário explicar os procedimentos nem sua finalidade. Os pesquisadores diziam que o propósito do estudo e da coleta dos exames era tratar "sangue ruim", e para convencê-los a se submeter a punções lombares para coleta de líquido cefalorraquidiano, eles diziam que estavam realizando um "tratamento especial".
O plano era realizar uma coleta de exames por 6 a 9 meses e depois iniciar o tratamento, ou pelo menos assim pensava o seu principal idealizador, Taliaferro Clark. No entanto, com a crise de 1929 os EUA entraram em uma grave recessão, e os fundos destinados ao estudo foram cortados. Os pacientes não receberiam tratamento. Clark e Raymond Vonderlehr, um de seus diretores subordinados, decidiram manter o acompanhamento dos pacientes mesmo sem o tratamento para mostrar a necessidade de se tratar a população negra. No entanto, quando Vonderlehr propôs que o estudo continuasse além dos 9 meses, Taliaferro Clark se opôs e acabou por sair. Foi de Vonderlehr a ideia de dizer aos participantes que as punções lombares eram "tratamentos especiais" para conseguir que concordassem em se submeter a elas. O estudo prosseguiu por mais quatro décadas. 
Outro colaborador, Oliver Wenger, diretor da clínica de doenças venéreas de Hot Springs, Arkansas, estabeleceu os protocolos iniciais para a pesquisa. Embora defendesse que os participantes devessem ser tratados, continuou a colaborar mesmo quando informado que não haveria tratamento, apenas exames. Também defendeu que o verdadeiro propósito do estudo, o acompanhamento da sífilis, não deveria ser informado aos pacientes, pois isso poderia afastá-los ou dificultar sua cooperação.
A equipe de funcionários locais do Instituto Tuskegee continuou a colaborar com os pesquisadores. O fato de ser em sua maioria negros e de conhecer a população local fez com que eles fossem cruciais para que se mantivesse um seguimento e uma boa relação entre os pesquisadores e os pacientes. Os profissionais que mais se destacaram foram o médico Eugene Dibble e Eunice Rivers. O quanto eles sabiam sobre o propósito do estudo de não tratar os pacientes permanece um mistério até hoje. Entre 1947 e 1962, 127 estudantes de Medicina negros se revezaram em atividades ligadas ao estudo no Instituto Tuskegee, inclusive como parte da formação médica.
Em 1936, um dos primeiros trabalhos realizados a partir do estudo de Tuskegee foi criticado por não haver menção a tratamento, e mesmo assim a equipe de pesquisadores reforçou aos colaboradores do Instituto Tuskegee a necessidade de manter o acompanhamento sem que os pacientes fossem tratados. Definiu-se que eles seriam acompanhados até morrer.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939, a produção de penicilina precisou ser realizada em larga escala para atender aos muitos feridos em batalha e evitar que morressem de infecção. Os EUA conseguiram isso em 1942. A partir de então, a penicilina passou a ser usada para um enorme número de infecções, e em 1945 ela é considerada a droga de escolha para o tratamento da sífilis. Ou seja, o estudo de Tuskegee prosseguia acompanhando centenas de pessoas com sífilis sem que nenhuma fosse tratada, mesmo com uma recomendação recente de que sim, havia um novo tratamento disponível para a doença e ele era bem mais efetivo e seguro do que os antigos tratamentos com metais pesados.
Quando a guerra acabou e os crimes dos nazistas foram expostos no Tribunal de Nuremberg em 1948, houve comoção mundial com os experimentos médicos realizados por Josef Mengele e outros (que envolviam submeter judeus a condições físicas extremas para descobrir até onde conseguiam sobreviver, ou amputar membros de um indivíduo e reimplantá-lo em seu irmão gêmeo, entre outros). Horrorizados, pesquisadores do mundo inteiro passaram a reavaliar suas condutas éticas e considerar a segurança, a privacidade e o consentimento dos pacientes antes de se iniciar um estudo. E ao mesmo tempo, no Alabama, um estudo que seguia na contramão da História continuava a ser realizado.

Doctor giving man a shot
Pesquisadores coletam sangue de um dos participantes do estudo de Tuskegee.

Nas décadas seguintes, campanhas de "centros de tratamento rápido" foram estabelecidas em todo o país, inclusive no sul dos EUA, fazendo a prevalência da sífilis cair para bem abaixo dos vergonhosos 35% da década de 1930, quando o estudo começou. Apesar da existência dessas campanhas, os pesquisadores do estudo de Tuskegee fizeram de tudo para evitar que os pacientes recebessem esse tratamento oferecido pelas campanhas, por que isso "estragaria o estudo".
Nos anos 1960, denúncias sobre a ética por trás do estudo de Tuskegee começaram a aparecer. Um jovem médico chamado Irwin Schatz fez a primeira denúncia, que não deu em nada. Mas no ano seguinte um investigador de São Francisco chamado Peter Buxtun encaminhou uma carta ao diretor nacional da Divisão de Doenças Venéreas e a repercussão foi maior. Comparações com os estudos conduzidos pelos nazistas eram inevitáveis. Poucos anos antes, o movimento pelos direitos civis dos negros havia começado a ganhar força, encabeçado por Martin Luther King. Embora o CDC tenha saído em defesa do estudo e afirmado a necessidade de se conduzi-lo até o fim (ou seja, até que todos os participantes morressem e fossem autopsiados), uma comissão do governo dos EUA foi organizada para investigar o caso e concluiu que o estudo de Tuskegee não era justificado eticamente. Ou seja, os benefícios em conhecimento não compensavam os riscos de se privar os pacientes de receber o tratamento adequado. Quando o estudo foi interrompido, no final de 1972, 74 dos 399 pacientes iniciais estavam vivos. 28 haviam morrido de sífilis e 100 morreram de complicações relacionadas. Mas eles não foram as únicas vítimas. As esposas de 40 deles contraíram sífilis, e 19 crianças nasceram com sífilis congênita. Nenhuma dessas mulheres e crianças teria tido a doença se a penicilina tivesse sido administrada aos participantes. Após uma batalha judicial, o governo dos EUA concordou em pagar uma indenização de 10 milhões de dólares para as famílias dos que participaram do estudo, e oferecer tratamento médico e auxílio funerário a todos os 74 que ainda estavam vivos.
O escândalo do estudo de Tuskegee reforçou ainda mais a necessidade de se obter consentimento e de se explicar aos participantes de um estudo a necessidade de cada procedimento ou mesmo a finalidade do estudo em si. Desde então, todo e qualquer pesquisador que se propõe a realizar um estudo precisa preencher uma série de pré-requisitos para não cometer infrações éticas. Entre elas, precisa garantir que o grupo controle, contra o qual está sendo comparada a intervenção que o estudo propõe, precisa receber o tratamento mais efetivo disponível. Dessa forma, se um novo remédio ou procedimento está sendo testado, ele precisa pelo menos não ser pior que o tratamento padrão. Isso hoje nos parece óbvio, mas esta triste história prova que não era para aqueles pesquisadores dos anos 1930.
O fantasma de Tuskegee ainda paira. Na década de 1980, quando a epidemia de AIDS ganhou os noticiários, a desconfiança da população geral para com os órgãos governamentais causada pelo experimento de Tuskegee gerou até mesmo teorias conspiratórias de que a AIDS havia sido desenvolvida para controlar a população mais pobre.

A História da sífilis mudou com a epidemia da AIDS. Descobriu-de que as alterações na imunidade causadas pelo HIV fazem com que a sífilis evolua de forma diferente nos indivíduos HIV +, mesmo naqueles que não preenchem critérios para AIDS. As três fases da sífilis podem se seguir em um intervalo menor ou até mesmo coexistir, e a doença parece evoluir mais rápido. Novos desafios se impõem em nossos dias. Uma doença que estava controlada nos anos 1990 voltou com força total nas primeiras décadas do século XXI, e esse parece ser um fenômeno mundial. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, entre 2010 e 2016 a taxa de detecção da sífilis adquirida saltou de 2 para cada 100.000 habitantes para 42 para cada 100.000 habitantes, um aumento de mais de 20 vezes em 6 anos. Dentre as gestantes, foi de 3,5 a cada 100.000 habitantes para 12,4 a cada 100.000 habitantes, um aumento de 3 vezes. Em sua maioria, os novos casos ocorrem na população jovem, e as campanhas para uso de preservativos parecem não surtir mais efeito. Para completar, houve um período entre 2015 e 2016 em que a Penicilina Benzatina desapareceu das prateleiras das farmácias em todo o país, com graves prejuízos para o tratamento e para o controle da doença. Os estoques voltaram ao normal, mas não sabemos se há risco de uma nova escassez ocorrer. E o número de casos de sífilis continua a aumentar, havendo Benzetacil ou não. 
A reemergência da sífilis tem apresentado novas questões, e ainda não temos as respostas sobre como controlar essa nova epidemia. O que sabemos, no entanto, é que não importa a maneira que encontremos, ela jamais poderá passar por cima da dignidade e do respeito à pessoa. Que escândalos como o de Tuskegee não se repitam jamais.

sábado, 8 de setembro de 2018

Sobre vida e morte

Uma senhora de setenta e poucos anos jazia sobre o seu leito no hospital, e sua vida parecia ir embora aos poucos. O câncer de colo de útero havia sido diagnosticado tarde demais para qualquer possibilidade curativa, já invadindo os tecidos em volta. E sangrando. A anemia e o tumor a consumiam e a deixavam ainda mais magra do que seria esperado para uma mulher hupda – uma etnia reconhecida pelo biótipo pequeno, magro e que um desavisado chamaria de frágil se não soubesse que os hupdas são nômades, não praticam a agricultura e vivem no meio da selva amazônica com o mínimo contato possível com a civilização ocidental. Do outro lado do quarto, seu filho a observa ir embora. Calmo e sereno, apesar de triste, e aceitando a partida de sua mãe como se soubesse que o desfecho é inevitável.
A cena, que presenciei ainda no primeiro mês de trabalho como médico no único hospital de São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas, causou-me profunda estranheza. A naturalidade e a passividade com que aquele filho aceitava a morte da mãe ia contra tudo o que eu, recém-saído da faculdade e sem noção nenhuma de terminalidade ou cuidados paliativos, havia aprendido até então. “Salvar vidas”, “lutar até o último momento”, “vencer a morte”, não é isso o que os médicos fazem? Aquele lugar e aquelas pessoas pareciam querer me ensinar outra coisa...
Poucos dias depois, deparei-me com uma cena parecida. Um senhor idoso, também internado em minha enfermaria, era acompanhado e observado por uma das filhas, que surpreendentemente também mantinha a mesma calma, a mesma naturalidade diante do pai doente, como que já aceitasse a chegada da morte. Mas havia uma diferença em relação à senhora que morrera dias antes: ele não estava com um câncer invasivo ou metastático que invariavelmente evoluiria para a morte. O que ele tinha era uma pneumonia, facilmente reversível com algumas ampolas de ceftriaxone. Em poucos dias ele estava melhor, sem o cateter de oxigênio preso ao rosto, e pronto para voltar para a comunidade de onde viera, algumas dezenas de quilômetros Rio Negro acima.
Esses dois casos, e muitos outros que se seguiram, me fizeram pensar que a forma como nós ocidentais encaramos a morte não é a única possível. Culturas diferentes encaram a morte, um fenômeno universal, de formas diferentes. Temos o direito de julgar a suposta passividade e calma com que os indígenas aceitam a partida de seus entes queridos, chamando-os de primitivos e insensíveis? A forma como eles vivem e como enxergam a morte é fruto de milhares de anos de adaptação a um ambiente que, ao contrário do que podem pensar alguns, é tudo menos idílico, paradisíaco e perfeito. A vida na selva é dura, exigente e cheia de perigos – garanto que quem chama esses povos de primitivos não sobreviveria mais do que dois ou três dias no meio da floresta, ao contrário do que eles próprios fazem. Em uma aldeia, um idoso doente não raro se enxerga como um fardo, e prefere se isolar dos filhos e do resto da comunidade, como que liberando-os para que continuem a viver suas vidas. E os próprios filhos e companheiros estão acostumados a isso, porque é o ciclo da vida, não importa se ele acabe por uma pneumonia ou por um câncer apesar dos esforços dos pajés. O que acontece quando, depois de milhares de anos vivendo e morrendo dessa forma, essas pessoas são levadas para um local recluso onde são tratadas com métodos que elas desconhecem, permanecem deitadas em camas duras e não nas redes às quais elas são acostumadas, e são vistas diariamente por pessoas que não enxergam a morte da mesma forma que elas?
Não quero em momento nenhum rejeitar ou negar os avanços que conquistamos nos últimos séculos, como tem feito um número cada vez mais alarmante de pessoas que voluntariamente aceitam expor seus filhos a doenças mortais não permitindo que eles sejam vacinados, por exemplo. A ciência ocidental é a grande responsável por chegarmos hoje vivos e saudáveis aos setenta, oitenta ou noventa anos. Vacinas, antibióticos, raio-X, exames de laboratório, técnicas cirúrgicas, conhecimento da fisiopatologia das doenças, microscópios e saneamento básico salvaram muitas vidas, e temos o dever como brasileiros de garantir que esses recursos mudem também a vida de outros brasileiros nos interiores deste imenso país. Mas talvez esses avanços todos tenham feito com que nos sentíssemos mais poderosos do que realmente somos e perdêssemos o rumo de vez em quando. Porque apesar de fantástica e avançando a cada dia, a Medicina tem seus limites. Há batalhas que não se pode vencer. 
Infelizmente, não é o que ensinavam nas faculdades há bem pouco tempo atrás. A aplicação de todos os recursos disponíveis para prolongar a vida a qualquer custo era ensinada como o certo a ser feito, não importando o conforto do paciente. Os rins pararam? Coloquemos o paciente em uma máquina de diálise que os substituirá. Os pulmões já não são suficientes? Um tubo orotraqueal e um ventilador mecânico podem garantir que eles funcionem melhor. O coração e os vasos já não conseguem fazer o sangue chegar a todo o corpo adequadamente? Drogas para aumentar a pressão e fazer o coração bombear com mais força resolverão o problema. Mas caímos no erro de esquecer a pessoa que é dona daqueles rins, daqueles pulmões e daquele coração. Ela gostaria de estar ali? Cada agulhada para colher exames causa dor, cada infusão de dieta por uma sonda nasoentérica encharca o corpo e dificulta a respiração. Todo esforço é louvável quando essas medidas são tomadas em situações onde a doença é reversível – uma infecção séria, uma desidratação severa, uma doença cardíaca ou pulmonar que pode ser controlada com as doses certas dos remédios certos. Mas às vezes nos deparamos com doenças que não são reversíveis, doenças cuja solução depende de recursos que infelizmente não estão disponíveis, ou doenças que levam a uma dor e a um sofrimento tão grandes que o melhor a fazer é controlar os sintomas e garantir que a doença siga seu curso de uma forma digna para o paciente. Um câncer com metástases por todo o corpo, uma doença pulmonar obstrutiva crônica tão grave que não pode ser compensada mesmo com todos os recursos disponíveis, uma queimadura em mais de noventa por cento do corpo levando a dores terríveis que nem as mais altas doses de morfina são capazes de controlar. Há situações em que prolongar a vida artificialmente significa prolongar sofrimento, e o melhor a fazer é controlar a dor, a falta de ar, os vômitos e deixar que o paciente tenha uma morte tranquila, sem exames desnecessários, sem agulhadas desnecessárias.
Hoje cada vez mais pessoas deixam claro de alguma forma o que chamamos de “diretrizes antecipadas”. “Não quero morrer sofrendo”, “não quero que me intubem ou que façam diálise se eu estiver terminalmente doente”. “Prolongar a vida” está dando lugar a “viver com mais dignidade os últimos momentos de vida”, e a ideia de cuidados paliativos gradualmente tem ganhado força nas faculdades de Medicina. Prolongar desnecessariamente o sofrimento é hoje um ato passível de punição pelo Código de Ética Médica, e até ganhou um nome: distanásia. Nossa população tem envelhecido, e a discussão sobre terminalidade e finitude da vida é mais do que necessária se quisermos viver melhor. Estamos aceitando nossos limites, ainda que nós, sejamos médicos ou familiares e companheiros de pacientes, às vezes pensemos que “podemos prolongar a vida um pouco mais” sem pensar no sofrimento que inevitavelmente virá junto. Há batalhas que não podem ser vencidas, e saber reconhecer isso exige que sejamos capazes de perceber a vida e a morte de outra forma. Perceber coisas e fenômenos de outra forma geralmente não é fácil, exige um grau elevado de empatia e colocar-se no lugar do outro – algo cada vez menos praticado nos dias de hoje. Talvez tenhamos muito a aprender com os indígenas do alto Rio Negro, para quem certamente nossa luta obstinada pela vida às vezes deve parecer tão estranha quanto a calma e a serenidade que eles manifestam diante da morte nos parecem. 

VACINAS CONTRA COVID-19 VERSUS HIV: A "POLÊMICA" DESNECESSÁRIA DE HOJE

Um estudo de 2008 identificou que células infectadas in vitro por um adenovírus humano (Ad5) expressavam mais receptores CCR5, as portas de ...